Grande travessia do Pacífico: Las Perlas – Ecuador – Marquesas

Tripulação: Armindo, Joana, Benita, Leonardo e Gaston Gimbernat.

IMG_1559Partimos de Las Perlas (Panamá) rumo às Galápagos mas o vento de frente fez-nos mudar de rota. Aproximámo-nos de costa, onde os ventos sopravam mais fracos, e navegámos em direção ao Ecuador, país. Íamos tranquila e lentamente, quando o capitão atento avistou um tronco de árvore enorme a flutuar, daqueles que à noite podem provocar tragédias, mas que de dia, são chamados de “achados” pelos pescadores. Estes troncos geram um impressionante miniecossistema, cheio de vida! As nossas linhas começaram a dar sinal, as 3 ao mesmo tempo, agitação total, as aves alimentavam-se, os golfinhos saltavam e até um espadim vimos à procura do jantar. Demos três voltas ao “achado”, o suficiente para nos abastecermos para os dias seguintes e jantarmos um delicioso home made sushi 😉

Passados 3 dias a motor, sem vento, seguiram-se 2 de relâmpagos e chuva fraca. Chegamos a Esmeraldas, no Ecuador, e por VHF informaram-nos que não tinham Marina. Não conseguimos entrar no porto dos pescadores pois devido à maré vaza a entrada não tinha a profundidade necessária para o nosso barco. O mar não dava condições para ancorar ao largo. Felizmente, ofereceram-nos guarida no porto dos navios, junto a um rebocador, com gente simples e amistosa. Deram-nos água e lavaram-nos a roupa.P1060137 Mostramos-lhes de onde vínhamos e ficaram encantados, como todos a quem mostramos um livro sobre os Açores. No dia seguinte, o Armindo voltou-se para os costumeiros problemas do barco e eu e o Gaston fomos resolver as habituais e enfadonhas burocracias para se entrar num país. A emigração cobrou-nos 50 dólares por cabeça, na capitania queriam mais outro tanto – queixamo-nos!! O raro capitão Romero ligou à emigração a pedir o decreto que informa ser necessário pagar tal valor – não existia!… Devolveram-nos o dinheiro!!

3 dias depois, onde num deles o Armindo esteve a trabalhar cerca de 7 horas no topo do mastro, com barcos de pesca a provocar ondulações ameaçadoras, reabastecemos de frescos, gasóleo, e finalmente seguimos caminho. Desistimos das tão ambicionadas Galápagos, por ser necessário efetuar um pedido de entrada duas semanas antes, além dos valores exorbitantes que pediam para lá estar – cerca de 250 dólares/dia.

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Continuámos junto à costa onde os ventos eram menos desfavoráveis. Aproximamo-nos de Salinas, cidade grande, e pedimos apenas para abastecer de gasóleo, de modo a evitar todos os pagamentos e burocracias de entrada e de saída. Pedido negado, continuamos viagem, a noite caiu, e apercebemo-nos que estávamos rodeados de redes de pesca, sinalizadas por flashes brancos. O Armindo ficou à proa a dar orientações e eu a executar ao leme. De repente, um barco com 3 homens aproximou-se a grande velocidade, o Armindo gritou “Chama o Gaston!!” Assalto? Piratas?!! Eram pescadores preocupados com as redes. Escoltaram-nos até ao fim da sua rede e despedimo-nos, gratos. Fui-me deitar e o Armindo ficou de turno. Estava a dormir e possivelmente devido a um som diferente, sonhei que estávamos presos nas redes. Foi tão real que acordei assustada e vim cá fora a correr e a berrar “Armindo, as redes! Estamos presos!”. Olhamos para o mar e já estávamos… “Chama o Gaston, Joana!” gritou outra vez, desesperado. Facas, lanternas, mergulhos, stress, sufoco e preces ouvidas. Rasgamos a rede dos pobres pescadores e livramo-nos. Aliviados, voltamos a içar a vela e de olhos abertos e lanternas apontadas para o mar, seguimos receosos. Passado algum tempo, outra vez!!! Presos nas redes! Oh, não!… desta vez o barco dos pescadores estava ao lado. Não se mexeram… os pescadores deviam estar a dormir. O Armindo voltou de faca à água, que tinha alforrecas ou qualquer outro tipo de bicho urticante e safou-nos de um filme de meter medo. Prosseguimos, de lanternas apontar para o mar e stress na barriga. De manhã estávamos KO e os meninos, felizmente OK para um novo dia 😉

Afastámo-nos da costa e finalmente estávamos no ângulo certo para aproveitar os famosos e tão esperados tradewinds, responsáveis pelo nome deste oceano. Começamos uma nova fase da travessia, estávamos a cerca de 3500 milhas náuticas das Marquesas. Velejamos 6500 Km sem ver terra, 23 dias onde tudo se fez numa dança com o mar, ora mais descompassado, ora mais suave e ritmado, com alguns dias de ócio e outros de muito trabalho – tudo, em total autonomia, graças ao nosso já mui fatigado Benyleo 2.

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E tanto que navegamos, e apenas atravessamos uma pequena parte deste enorme oceano, que cobre duas vezes a área do Atlântico e que se estende por uma área maior do que toda a terra firme do planeta – 165 milhões de km quadrados… E tanto que ainda nos espera!

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13 Comments on “Grande travessia do Pacífico: Las Perlas – Ecuador – Marquesas

  1. Altamente, viajar convosco através das palavras da Joana 😉

    Temos estado sempre a torcer pela vossa felicidade e bem estar. Continuem firmes, atentos e procurando sempre o lado positivo de cada situação.

    É bom perceber que estão flexíveis para adaptar a viagem aos condicionalismos que vão surgindo, gastando as energias e os recursos naquilo que realmente interessa, não insistindo naquilo que vos pode afastar do objetivo maior: A travessia pelo Mundo Total, de todas as pessoas, de toda a Natureza, de todas as emoções.

    O vosso maior troféu será o brilho que perdurar nos vossos olhos.

    Beijos e abraços mil para vocês “os Pirangas dos meus sonhos”.

    Filipe (elas já estão a dormir)

    P.S. – escrito numa noite abafada de calor (“agoniada” :)) em 19/6/2017, segunda para terça, às 01:25 da madrugada continental, Albarraque, Sintra, Lisboa, Portugal. Estamos há 4 dias acima dos 40 graus! Pessoalmente adoro as noites quentes na rua 🙂

  2. Que lindos!!
    Tão bom ouvir noticias vossas!! Continúação de bons ventos!
    Beijinhos

  3. Sinto o sal do Pacifico nos lábios ao ler este relato.Que bons ventos vos levem á volta do nosso incrível planeta.

  4. Ola todos!
    Enquanto lia o vosso texto vivi convosco o momento de ficar preso nas redes. E devorei cada palavra para saber se tinham arranjado bronca com os pescadores ou não !!
    Continuem! Estou com inveja dessa vossa aventura, mas da boa!
    Beijos
    Marco, Maria e Tiago

  5. Queridos amigos, querida Joana, tão bom viajar contigo através dos teus fantásticos relatos, continuação de boa viagem, bjs!

  6. Que bom que chegaram bem às Marquesas! Tenho acompanhado a vossa jornada!
    Que bons ventos continuem a acompanhar-vos! 🙂

  7. Sigo-vos em mente e na fantástica prosa que escreves Joana! Um Beijo e Abraço. Rui Amen

  8. A tua descrição é incrível…. Obrigada, Joana, por nos permitires participar da vossa aventura. Beijos para todos. Que Deus vos acompanhe.

  9. Ohpá….granda malucos…já estava a ver que a vossa ausência em news se devia a esta belissima aventura…só mesmo o espirito tuga mesclado de açoreanos daria para uma coisa assim…
    Grato por partilharem.

    bjs e abraços
    rafa

  10. Viagem inspiradora! E os textos estão interessantes, quem sabe ainda vão dar lugar a um livro 🙂

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