O que para alguns parece óbvio para outros é um absurdo e esta é possivelmente a maior riqueza do ser humano, a sua diversidade. Para uns somos loucos para outros uns heróis! Eu acho que nem uma coisa nem outra. Vamos tentar fazer uma circum-navegação à vela em família porque achamos que poderia ser uma grande experiência para todos nós, porque achamos que o poderíamos fazer. E agora, porque temos a oportunidade de o fazer, aí sim, seríamos loucos se não o fizéssemos! É mesmo verdade, o que é preciso é sonhar! É preciso até, por vezes, não encaixarmos para procurarmos um novo molde. E se esse molde não servir, mais facilmente procuramos um outro, até nos sentirmos bem “encaixados”! Claro que isso durará um certo tempo… 😉

 

Quando decidimos que queríamos dar a volta ao mundo à vela imaginámos que daria muito trabalho chegar ao dia da partida. Agora, que este dia está próximo, posso dizer-vos:

– Deu muuuuuuito mais trabalho do que eu imaginava!

Sinceramente, deu tanto trabalho chegar aqui, que várias vezes nos perguntamos porque o fazíamos e por vezes até pensámos em desistir… Ainda bem que não o fizemos J agora já passou! Para uma família abastada ou altamente patrocinada, que compre feito e mande fazer, será certamente mais fácil. Tudo depende do projeto em questão, do barco que se tem, dos meios de que se dispõe e do que se pretende. Obviamente, não existem check-lists universais. Cada um tem de fazer a sua. Partilho aqui a nossa, num formato abreviado, mas que permite terem uma ideia mais clara do que foi organizar a partida para uma aventura destas e que com certeza responderá a algumas das vossas questões!

3 anos a escolher o barco certo – tínhamos um monocasco mas depois de experimentar um catamarã decidimos que tínhamos de mudar de barco! Foi uma longa procura, acho que o Armindo fez um “doutoramento” na área, pelo tempo que passou na net a ver sites de barcos… E porquê um catamarã? Tem mais espaço, mais luz, não temos de viver de lado (quando estamos a velejar), a sala e cozinha (locais onde passaremos mais tempo) ficam à tona da água e têm vista para o mar;)

(In)Definição da rota – há cerca de 2 anos começamos a planear a rota. Como adoramos e nos identificamos bem mais com a América Latina escolhemos a rota de Magalhães. Sonhámos e estudámos toda a costa atlântica deste maravilhoso continente, traçamos o caminho por entre os incríveis fiordes da Patagónia, imaginámo-nos a beber um whisky com gelo do glaciar, a conhecer a maravilhosa flora e fauna e depois de centenas de horas de net a estudar o assunto, recebemos a recusa de uma seguradora em nos fazer um seguro da viagem por causa da rota!…. começamos a pensar, ponderamos e concordamos, eles tinham razão! Há 4 meses mudamos para a atual rota (vamos pelo canal do Panamá). E eles nem sabiam eles que ¾ da tripulação nunca velejou além Açores!!!…

Pobres crianças, e se ficam doentes? – sabemos que este é o primeiro pensamento de muita gente e sim, estaremos por vezes muito longe de um hospital. Mas não tanto como alguns pensam, a maior parte do tempo estaremos em terra e muitas das travessias serão inferiores a 4 dias. De qualquer maneira, houve uma grande preparação a este nível, fizemos exames médicos (eu até tirei a vesicula e o apêndice), consultas do viajante, fomos vacinados, levamos uma mini-farmácia projetada por um médico amigo e contamos com a tecnologia em caso de necessidade.

Vão viver de massas e enlatados?! – Não!!! Eu até dou muita importância a uma alimentação saudável (exceto nos doces… um aspeto a melhorar!) e sendo muitas das travessias inferior a 4 dias e porque temos congelador, frigorifico e uma caixa de frio (o frigorifico tem uma “portinha” que dá para um armário onde está sempre fresquinho) planeamos alimentarmo-nos da mesma maneira, com produtos frescos e locais. Levaremos viveres e água com fartura, até conseguirmos comprar o tão ambicionado dessalinizador (máq. espetacular que transforma água do mar em água potável). E mesmo nessa altura, levaremos água com fartura!!

E a escola? – A Benita passou para o 2º ano e o Leonardo está a iniciar a pré-escola. Felizmente, no nosso País é permitido o Ensino Doméstico (nem tudo é mau!…) e nós os pais, vamos dar-lhes as aulas. Tivemos o apoio da escola da Benita (Colégio do Castanheiro) e da querida professora Liliana que nos disponibilizou toda a informação sobre as metas curriculares e preparou material qb. Compramos os manuais adotados pela escola para o 2ª e 3ª anos e com o apoio da Porta Editora, teremos acesso gratuito à Escola Virtual. E sinceramente, com uma viagem destas no currículo, escola não lhes vai faltar! Terão aulas práticas de Geografia, Ciências, História, Inglês, Desporto com fartura – Vão aprender a velejar, surfar, etc., – aprenderão a respeitar a diferença e a admirar e reconhecer o verdadeiro tamanho da nossa Casa <3

E o papel? – Que papel? – O papel! – Quanto a documentos, vivemos num mundo burocrático, já se sabe… Passaportes, cartões de cidadão, certificados de nascimento (no caso de ser necessário renovar o passaporte fora do país), documentos do barco (como o novo barco é belga e além da mudança de dono mudamos-lhe o nome, tivemos de tratar ainda de mais papeis), bancos (cartões de crédito, cartões pré-pago, escolher bancos, fechar contas, abrir contas), seguros, venda do carro, aluguer da casa e por daqui em diante. É preciso tratar. Ponto.

E vão viver do quê? – este é logo o primeiro limite que a nossa cabeça nos quer impor! Connosco não funcionou;) poupamos durante os últimos 4 anos, temos alguns rendimentos e não temos medo de trabalhar. Trabalhamos muito para chegar aqui e planeamos continuar a trabalhar. O Armindo tem competências para colocar uma placa no barco a dizer “BOAT SERVICE” e resolver os problemas do barco alheio. Eu, até gostava de me ver noutros papeis profissionaisJ

E o que levam? – Como se imagina, o ir viver para um barco implica uma drástica redução de TUDO! Implica um árduo trabalho de SELEÇÃO, selecionar pouca coisa para levar, selecionar o que é para dar, o que é para deitar fora, o que é para vender e o que é para encaixotar. Para as crianças foi um pouco mais difícil mas agora que reduziram os brinquedos para 1/10 não sentem falta dos restantes. Para mim, foi trabalhoso, mas um alívio. Agora temos menos para arrumar, para lavar, para secar, para gerir! 🙂 Levamos pouca roupa, livros qb, poucos brinquedos, material de desporto com fartura (padle, surf, badmington, windsurf, mergulho, bicicletas, skates, trotinete, etc.), algum material de comunicação (PC, ipad, rádio, telefone por satélite, antenas, material de vídeo e fotografia), algum material de segurança (coletes, arnês, EPIRB, AIS, apitos, lanternas, very-lights, mochila sos) e Muitaaa ferramenta!………….

E então, é simples?