Ao fim de um ano a navegar pelos três maiores oceanos do nosso lindíssimo planeta voltamos a casa, não á nossa, mas à dos meus pais, ao meu ninho original. Viemos matar saudades!… Celebrar o 70º aniversário da avó 😊 e comprar velas, cabos e outras peças que necessitam ser substituídas, depois de tanto mar.

Os calorosos abraços, os olhinhos sorridentes e a emoção de voltar a casa são preciosos momentos, também fruto desta aventura. As perguntas são tantas e as respostas insuficientes para contar tudo o que temos visto e vivido. A maioria admira, mas afirma não se sentir capaz de enfrentar um oceano. Têm receio do imenso azul. De não terem nada para fazer? De se sentirem sós? Da meteorologia? Receio de não ver terra? Tento explicar que o horizonte liberta, o azul apazigua, a tecnologia tranquiliza e que no fim, há o brinde – chegar a novo lugar! Mas há mais do que esta gratificação de “longo prazo”, há ainda a gratificação imediata do velejar. E essa até há pouco tempo foi nova para mim, porque antes de iniciar esta viagem, eu era uma viajante de terra, que de barco, nunca tinha ido além Açores. Sem medo da inexperiência e com uma confiança total na capacidade do Armindo, fiz-me ao Atlântico e descobri mais dois amores, o mar e a vela!

Velejar é tirar partido da Natureza, respeitando-a. É sentir a adrenalina da velocidade e o prazer do lento deslizar. Entrar num barco e partir numa viagem, é dar literalmente asas à imaginação! Encanta-me a eficiência de um barco à vela, fruto de séculos de aperfeiçoamento e com tanto ainda por melhorar. Sim, porque a criatividade, também aqui é essencial – para enfrentar os diversos cenários possíveis e os mil problemas que desafiam quem escolhe este tipo de vida.

E agora sei que os benefícios da vela são tantos e que se estendem a miúdos e graúdos. Todos ganham com o aprender/melhorar a capacidade de trabalhar em equipa. A conexão com a Natureza e o desligar do mundo virtual é outra benesse óbvia. Mas velejar é também incentivar á exploração, à aventura, à ousadia e à coragem! E é ter oportunidade de crescer noutras tantas dimensões – na autonomia, na técnica, na confiança, na responsabilidade. Gostava de vos aliciar a experimentar uma aula de vela! Onde é que se fazem aulas de vela experimentais?!

Será que é possível trazer os portugueses de volta para o mar?😉

Está a fazer 1 ano que velejo pelo mundo com a minha família. E desde o início desta aventura que sei que o maior desafio que enfrentamos, é o relacional – conseguirmos conviver, em qualidade, tanto tempo, sempre juntos, num espaço confinado, num ambiente sempre em mudança. E porque a necessidade desenvolve o engenho, durante esta viagem tenho aprofundado o meu estudo sobre a Nonviolent Communication de Marshall Rosenberg – especialista mundial na mediação de conflitos – e partilho aqui, 7 pontos que nos têm ajudado e que vos poderão ajudar também 😊

1.Tudo o que as pessoas fazem está ao serviço das suas necessidades.

Não há bons nem maus, certos ou errados, apenas pessoas com necessidades diferentes.

2. Cada um deve ser responsável pelas suas ações e sentimentos.

É comum dizermos que estamos zangados ou tristes pelo que nos fizeram, responsabilizando os outros pelos nossos sentimentos, mas o princípio está errado. Imaginem que combinaram um encontro com um amigo e ele vos deixa uma hora à espera na esplanada. Podem sentir-se chateados porque tinham outras coisas para fazer e gostavam de rentabilizar melhor aquele tempo, ou poderão sentir-se bem porque estavam mesmo a precisar de um tempo sozinhos, tranquilos, ao sol. Portanto, não é o que os outros fazem que nos provoca os sentimentos, mas sim a forma como o interpretamos.

3. A forma como nos expressamos influência o modo como a mensagem é recebida pelo outro.

Criticar, julgar, comparar, generalizar só vai provocar resistências no outro, logo, funciona melhor se expressarmos os nossos sentimentos, assumindo a nossa responsabilidade por eles, e só depois, pedir alguma colaboração ou mudança – “Perante…. (um acontecimento concreto), eu sinto-me … (expressar o sentimento) porque eu preciso de … (expressar a necessidade) e por isso peço-te que … (fazer um pedido concreto)”

4. Se fizermos algo de mal, procuremos perceber que necessidade queríamos satisfazer com aquele comportamento, poderão haver outras maneiras de chegar lá.

O mesmo se aplica aos outros, mais importante do que julgar é compreender que por detrás do comportamento do outro está uma necessidade, que podemos ajudar a satisfazer.

5. Ao fazermos um pedido é fundamental verificar se não é uma “ordem camuflada”.

Estamos a dar opção ao outro de recusar? O outro fica em paz se nos disser que não? Porque só devemos satisfazer as necessidades dos outros por compaixão, nunca por medo, culpa ou vergonha.

6. Expressarmo-nos pela positiva resulta melhor para os dois lados!

Em vez de dizermos aos outros o que não queremos que eles façam, experimentemos dizer o que gostávamos que fizessem – orienta-os melhor. Em vez de dizer simplesmente que não, expressar que necessidade nossa, nos impede de dizer que sim – compreendem-nos melhor!

7. Agradecer não basta.

Expressar gratidão dizendo que necessidades nossas foram satisfeitas com aquela ação ajuda o outro a compreender-nos e tem muito mais impacto do que um simples, obrigada!

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Parece simples, mas não é!!… 😉

A partir dos Objetivos de Desenvolvimento do Milénio (2000 – 2015) as Nações Unidas definiram os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) na Agenda 2016 – 2030, que no geral, se traduzem no acabar com todas as formas de pobreza, combater a desigualdade, a injustiça e proteger o planeta. Com este propósito e seguindo uma proposta de Kofi Annan, foi criada a United Nations Global Compact e consequentemente a Global Compact Network Portugal, com mandato para organizar a contribuição do sector empresarial para a realização dos ODS. Esta última, propôs-se a criar a “Aliança para os ODS”, uma plataforma com o objetivo de realizar a contribuição do sector empresarial para a concretização destes objetivos. O GRACE – Grupo de Reflexão e Apoio à Cidadania Empresarial, enquanto membro aderente da Aliança para os ODS e representante de 150 empresas sediadas em Portugal, tem tido um papel de relevo na informação, sensibilização, monitorização e avaliação dos ODS, de forma a promover a sua concretização.

Mas estes “comprometimentos” não competem apenas às empresas, devem estender-se a cada um de nós. Assim, o GRACE, ao ter conhecimento das nossas preocupações e ambições de contribuir para um mundo melhor, desafiou-nos a partilhar alguns dos nossos “cuidados” na linha dos 17 ODS. E porque, naturalmente, uma viagem destas nos sensibiliza bastante para as necessidades e problemas deste pequeno ponto azul.

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Procuramos educar os nossos filhos para uma maior consciência ambiental e social, não lhes compramos brinquedos, construímo-los com eles. Alertamo-los para o perigoso poder do marketing e do consumismo, tentando ser bons modelos. Usamos maioritariamente energia solar e eólica durante a viagem. Todas as lâmpadas que usamos são de LED. As bicicletas são o nosso principal meio de transporte terrestre. E no dinghy, pequeno barco que usamos para ir a terra, optamos por um motor de 4 tempos, muito menos poluente do que os outros. Procuramos consumir com moderação e preferencialmente frutas e vegetais, locais e da época, porque todos os outros implicam um enorme gasto de combustíveis para chegar até nós.  Evitamos, na medida do possível, o consumo de plásticos – sacos plásticos, molas da roupa plásticas, embalagens pequenas ou de unidoses, pratos e talheres descartáveis, etc. Usamos uma garrafa “permanente” ao invés das habituais garrafas de plástico descartáveis, para transportar água. E dinamizamos as ações KELP – Kids Environmental Lessons Plan, ações de sensibilização ambiental traduzidas e dinamizadas pelos voluntários dos Sailors for the Sea Portugal. É tão pouco, que continuamos a pensar, em  como poderemos fazer mais? E para já, a resposta está em fazer com que sejamos mais, os preocupados, os voluntários, os que querem agir…

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Lista dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável:

Erradicar a Pobreza

Erradicar a Fome

Saúde de Qualidade

Educação de Qualidade

Igualdade de Género

Água potável e saneamento

Energias Renováveis e Acessíveis

Trabalho digno e crescimento económico

Industria, Inovação e Infraestruturas

Reduzir as desigualdades

Cidades e Comunidades Sustentáveis

Produção e Consumo Sustentáveis

Ação Climática

Proteger a Vida Marinha

Proteger a Vida Terrestre

Paz, Justiça e Instituições Eficazes

Parcerias para a implementação dos Objetivos

 

 

Somos poucos mas não somos raros! Ao longo desta viagem temos conhecido várias famílias a navegar, a maioria com dois filhos. A maioria, como nós, anda à procura de outras famílias para que as crianças possam brincar juntas. E também aqui, não são raras as vezes em que são as crianças que juntam os adultos. Hoje juntamos-nos 3 famílias, seis crianças, para festejar o 7º aniversário do Dylan, em Bora Bora. Cada família com uma nacionalidade diferente, oriunda de uma cultura diferente e com tanto em comum. Também eles foram aplaudidos e criticados quando largaram tudo para educar os filhos no mar, pelo mundo. Também eles sentiram as asperezas da adaptação a uma nova forma de vida, e que implicou tantas descobertas, muitas delas interiores. E todos, sentimos que estamos a dar o melhor aos nossos filhos, apesar do alto preço da distância daqueles que amamos. Para quase todos os que conhecemos, este é um projecto de poucos anos por indisponibilidade financeira. Apesar das dificuldades da vida de mar, quase todos os que conhecemos, escolheriam esta vida de liberdade, fora do trilho, no comando do seu dia-a-dia. Parece lógico? Então porque somos tão poucos?! Especialmente num país com a nossa História e com a nossa quantidade de mar? Porque é que só conhecemos uma família portuguesa a navegar, além de nós, se há tantos insatisfeitos com a sua vida “acorrentada” das 9h às 5h? Gaiolas douradas… diz-me a minha querida amiga Susana. Amarras e “defensas” psicológicas? Que não seja porque isto é coisa de ricos, porque não é! A maioria das famílias navegantes que conhecemos são classe média alta e todos, gastamos menos no mar do que gastávamos em terra. Aqui não pagamos escolas e explicações, embora os nossos filhos passem a vida em visitas de estudo, não pagamos água, eletricidade ou internet e o consumo de gáz é muito pouco (só para cozinhar). Em roupa e calçado basta o mínimo e no supermercado, reduzimos significativamente os gastos de peixaria e outros, porque a fartura europeia é coisa rara na maior parte do mundo. Para os bons velejadores até o consumo de gasolina diminuiu drasticamente e, por conseguinte, a pegada ecológica – que é uma coisa muuuuito importante! Claro que há um grande gasto inicial, com o barco, com a preparação do barco para a autonomia e que se deixa de ter ordenado, pois ainda são poucos os trabalhos à distância. Mas não valerá esta oportunidade, o adiamento da compra da casa, a venda do carro e do sofá? Cada um sabe de si, cada um tem o seu sonho. E eu só queria passar a mensagem, àqueles tantos sonhadores, que isto tudo vos é bem mais acessível do que imaginam. Que felizmente, vivemos numa altura em que o mundo está ao nosso alcance, com bastante segurança. E que um projecto chega, para tudo começar 😊

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Família Portuguesa há 2 anos e meio no mar.

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Família Americana há 1 ano a velejar.

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Família Australiana há 1 ano ao sabor das ondas.

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Família Holandesa – fazem chaters na incrível escuna que se vê no fundo

Welkom op de website van Zeilschip Silverland!

 

“Tiveram que ir penar mágoas, desbaratar a saúde, enterrar o melhor da própria vida num mundo que não era o deles para atinarem com o encanto de tudo isto”. Não me comparo a um baleeiro mas projetei-me nesta de Dias de Melo. Tem sido duro… E as saudades… Sempre colhi este benefício das viagens – o adorar voltar para casa, o valorizar onde vivo e de onde sou – mas nesta, que é a maior viagem da minha vida, isto tem sido sentido no seu expoente máximo. Os Açores nunca foram tão lindos, o Porto tão genuíno, os amigos tão importantes, a família nunca me fez tanta falta!… Dizem que às vezes é preciso afastarmo-nos para dar valor ao que temos, não sei, eu sempre dei valor ao que tinha, mas que o afastamento me está trazer outro olhar, está!…

Somos uns afortunados pelas oportunidades que se nos deparam – conhecer o mundo, viver a viajar, educar os nossos filhos de uma forma tão individualizada – pelas oportunidades pelas quais lutamos tanto e seguimos lutando, porque esta vida de mar, está recheada de asperezas e dificuldades. Sem querer soar queixosa, queria passar a mensagem de que dar uma volta ao mundo de barco, em família, são rosas, cheias de espinhos!!!…

Na última grande travessia passamos quase um mês sem ver terra, em autonomia total, um mês a velejar noite e dia, um mês sem ver outras caras e ouvir outras vozes, um mês a gerir 500 litros de água para cinco pessoas, um mês a enfrentar a possibilidade do aparecimento de uma doença ou de um acidente, sem a possibilidade de ter suporte médico.

Mas depois aportamos em Hiva-Oa, na Polinésia Francesa, e sentimos que o prémio é alto.  E deixamo-nos invadir pela curiosidade e pelo otimismo, de que no futuro será mais fácil. E mostramos aos nossos filhos que a obstinação nos leva onde quisermos – Só não consegues o que não queres! – repete-lhes o pai quando se queixam. E nós, seguimos trabalhando, arranjando os mil e um problemas de uma casa feita para estar no mar mas que mesmo assim, é a custo que combate as mil e uma forças da Natureza.

O nosso ano letivo também acabou, passaremos 2 meses de férias neste paraíso, onde a maioria das mulheres usam flores frescas e perfumadas no cabelo, onde não são raros os homens com o corpo todo tatuado, onde as galinhas são animais vadios e à disposição de quem as quiser apanhar, como a fruta, abundante e acessível aos braços com vontade – tal é luxuria da Mana, a força viva e espiritual que conecta esta ilhas.

As crianças também sofrem com as saudades, mas sabem quão privilegiadas são de estar aqui, de crescer assim. Estão a aprender 3 línguas ao mesmo tempo, espanhol, francês e inglês com a mesma energia que aprenderam o português, por necessidade, com naturalidade. Aprendem a poupar e a valorizar tudo, porque hoje, compramos tomates, mas há um mês que isso não acontecia. E não sabemos quando se proporcionará tão simples e importante compra outra vez. E hoje, também fizemos um amigo, e isso, é coisa que vale milhões!

Viver assim é uma escolha. E hoje, escolhemos seguir velejando rumo aos nossos queridos Açores, por ocidente!

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(publicado no Jornal Açoriano Oriental a 13/07/2017)

Chegamos ao fim do primeiro ano de ensino doméstico e fazemos uma reflexão, as duas, a minha filha de 7 anos e eu. Ela diz-me que gosta mais das aulas da professora Liliana, “mas assim também é bom, tenho menos aulas! 😉”. Eu digo-lhe que para mim foi um grande desafio e que estou contente com os nossos resultados. Como seria de esperar, esta experiência lectiva, com cheiro a mar e sabor a frutos exóticos, tem os seus prós e contras.

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Só por este tipo de ensino ser legal em Portugal é que pudemos encetar o projecto de uma volta ao mundo de barco, em família. Não é por acaso que até agora ainda não encontramos famílias espanholas com crianças em idade escolar a fazer o mesmo, é que no país vizinho é obrigatório que o ensino seja ministrado nas escolas. Mas embora seja legal, não foi fácil adoptá-lo. Nos Açores, as burocracias são muitas e se o conseguimos foi graças à preciosa colaboração da Professora Sara Massa e do Colégio do Castanheiro, que incansavelmente nos apoiaram e orientaram em todo o processo. A querida professora Liliana Oliveira, professora do 1º ano da minha filha, disponibilizou-nos material de apoio, os conteúdos programáticos, a prova de aferição do 2º ano, para que pudéssemos fazer a nossa avaliação, e mais importante do que tudo isto, deu-nos confiança e acreditou em mim e na Benita.

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Como não sou professora, optei por seguir os livros escolares escolhidos pelo Colégio. Depois estabeleci uma rotina, com horário e local de estudo bem definidos: a seguir ao almoço, enquanto o irmão de 4 anos dormia a sesta, nós as duas sentávamos-nos à mesa da sala, do barco. Dizia-lhe que escolhesse a disciplina e durante duas horas seguíamos os manuais escolares. Sim, durante este ano lectivo a Benita estudou cerca de 2 horas por dia e obteve uma excelente pontuação na prova de aferição – benefícios de um ensino individualizado e que no fundo não se reduziu a estas duas horas. IMG_1799De manhã, fazíamos actividades igualmente importantes, onde incluíamos o Leonardo – culinária, costura, pintura, carpintaria e exploração de livros e, sobretudo, de países novos! Onde paramos, além de museus e parques infantis fizemos paragem obrigatória na biblioteca local. O facto de os livros estarem noutra língua não os incomoda nem um pouco. Estão a aprender 3 idiomas ao mesmo tempo, espanhol, inglês e francês, assim como Geografia, História, Vela, Surf, e para mim, a mais fascinante de todas as aprendizagens – quão bela é a diversidade cultural humana. Graças ao ensino doméstico.

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Por outro lado, principalmente a Benita, sentiu muito a falta dos amigos. Perdeu as importantíssimas aprendizagens que se fazem no recreio, longe dos adultos. Fez novos amigos, mas superficiais, por motivos temporais… P1050825A gestão dos papeis de mãe e professora, foi-nos igualmente custosa. Eu sou a mãe e a Professora Liliana, que ficou nos Açores, foi e continua a ser a professora. E por fim, confirmei empiricamente, como tão nobre profissão, requer vocação. Motiva-los nos momentos difíceis, tolerar as distrações e desinteresses, impor limites sem apagar a chama da curiosidade ou danificar o laço que nos une. Não é fácil.

Para mim, o ensino doméstico é liberdade. É partir do princípio que os pais querem o melhor para os seus filhos. Acredito nisto. E principalmente naqueles que querem enveredar por este caminho, que não é o mais fácil, mas que pode trazer frutos incríveis!