Ceilão, Trapobana ou Sri Lanka?

Para os locais, esta incrível ilha a sul da Índia sempre teve o nome de Lanka, mas os Romanos chamaram-lhe de Trapobana, os comerciantes muçulmanos de Serendib (Ilha das joias em Árabe) e os Portugueses, os primeiros europeus a lá chegar, distorceram Sinhala-dvipa (Ilha dos Sinhaleses) para Ceilão. 150 anos depois foram colonizados pelos Holandeses que traduziram o nome para Ceylan e outra centena e meia de anos depois foi a vez dos Ingleses invadirem a ilha e remodelarem o nome para Ceylon. Só nos anos 70, com a criação de uma nova constituição, é que o país decidiu recuperar o nome original Lanka acrescentando-lhe o Sri, um título de respeito.

A história dos nomes da ilha conta-nos um pouco da sua História recente mas o que realmente nos entusiasmou foi a sua História mais antiga – acredita-se que ali tenha existido há 32 mil anos, uma civilização com tecnologia e dimensão superior à dos Egípcios! E que destes ainda existem descendentes, embora num reduzidíssimo número, os Veddahs (Pessoas da floresta ou Espíritos da Natureza), caçadores-coletores que vivem em total harmonia com a natureza, deslumbrante, rica em florestas tropicais e reservas naturais, com uma biodiversidade endémica que muito poucos países conseguirão destronar.

 

E é também aqui que mora um dos seres vivos mais antigos do planeta! Há cerca de 2000 anos os Indianos trouxeram o Budismo e um ramo da Bodhi Tree, aquela que protegeu Budda no momento da Iluminação. Plantaram-na num sítio especial e hoje ela é a Sri Maha Bodhi, um tesouro nacional, uma árvore com mais de 2000 anos, rodeada de templos-relíquias da mesma época! Não, não tivemos tempo de ir sentir este magnifico ser. Ficava a 6 horas de comboio e nós já tão atrasados na época ideal para subir o Mar Vermelho. Contentamo-nos em visitar outros locais interessantes mais perto de onde estávamos atracados, no Porto de Galle, na Região Sul.

 

 

Contam que Galle deve o nome a um galo que cantou aquando da chegada dos Portugueses a esta baía. Que construíram um Forte, que mais tarde foi destruído e reconstruído pelos Holandeses. Hoje, o Galle Fort é um dos oito locais da ilha reconhecidos como património mundial da Humanidade pela UNESCO. Oito! Numa ilha com o tamanho da Irlanda mas com o quádruplo da população 😉

O Forte de Galle é uma charmosa cidadela colonial com pitorescas ruelas, restaurantes, lojas, casas e igrejas antigas recuperadas, onde ao fim da tarde os namorados vão ver o pôr-do-sol, os turistas passeiam pelas muralhas, uns locais jogam cricket – o desporto nacional – e outros dão mergulhos espetaculares para o mar em troca de moedas. É a zona turística da cidade, mas não está sobrelotada, está cuidada e convidativa. Gostamos muito!

Também fomos ao Udawalawe National Park, uma reserva com cerca de 500 elefantes, búfalos de água, crocodilos e muitos outros animais selvagens no sítio onde devem estar, no seu habitat natural. Quisemos ir de autocarro público, pois para além de ser mais barato seria uma experiência sociológica e cultural! Tinha a informação de que às sete da manhã havia um autocarro direto que demorava cerca de duas horas a chegar à vila mais próxima do parque. Quando chegámos o dito autocarro tinha partido às 6:30 e sugeriram-nos apanhar um outro que ficava a meio do caminho mas que a partir de lá seria fácil arranjar ligação. Resultado – tivemos de apanhar quatro autocarros repletos de gente, música e côr e cinco horas depois lá chegamos! Do ponto de vista social foi muito interessante, do ponto de vista das costas e das crianças, foi uma experiência a evitar!… Para ajudar ao bom humor da descendência, quando chegamos chovia torrencialmente e nos snack-bares locais só vendiam comida local e picante!! O que nos fez recuperar os sorrisos foram mesmo os enormes jipes para fazermos um safari pelo Udawalawe National Park – E foi espectacular!!!

Outro acontecimento interessante foi termos apanhado o Ano Novo dos Sinhaleses, etnia predominante no Sri Lanka. Este ano, o ano começou a 14 de abril, o que nem sempre acontece já que se gerem por um calendário astrológico que tem pequenas variações de ano para ano. E tal como na nossa tradição, nos últimos dias do ano, tudo é agitação, compras, trânsito e no 1º dia do ano não se vê vivalma na rua – o que foi excelente para passear de bicicleta! O comércio e os serviços fecham e todos recolhem ao ambiente familiar. E não compreendemos bem se seria tradição da época convidar alguém de fora nestes dias, ou se este povo é realmente de uma hospitalidade incrível, a verdade é que fomos convidados para jantar pelas 3 únicas pessoas que conhecíamos, Ekka, o condutor de tuk-tuk, Mr. Chatura, o agente que contratamos para nos tratar das formalidades de entrada no país (Tango Shipping Agency) e Herath, segurança do porto onde estávamos atracados! Em dias diferentes, levamos sobremesas portuguesas e confraternizamos com as suas queridas famílias, que fizeram questão que trouxéssemos para o barco as suas sobremesas tradicionais. E para quem está há tanto tempo longe do aconchego do lar, nem imaginam o bem que isto sabe!

Ekka

Equipa da Tango Shipping Agency

Famílias acolhedoras e culturalmente tão diferentes de nós. Das três famílias que nos convidaram, só numa é que um dos elementos da família se sentou à mesa connosco, Mr. Chatura. A restante família comeu na cozinha e só depois da refeição é que nos juntamos todos numa outra sala para o convívio. Com as outras duas famílias, apesar de insistirmos para que nos sentássemos todos juntos, não conseguimos que tal acontecesse. Basicamente serviram-nos satisfeitos e nós aceitamos ser servidos de modo a respeitar o que parecia ser a tradição local. Uma tradição estranha, uma tradição do outro lado do mundo, onde o sim se manifesta meneando lateralmente a cabeça e o não, com um outro abanar de cabeça difícil de imitar!

 

E viajar é isto tudo, partilhar tradições, descobrir outras formas de estar, ver passeios estragados pelo mau tempo, andar à procura de pássaros que assobiam como pessoas, comprar o que há e não o que se quer, desesperar e aceitar regras que não se compreendem, ficar com vontade de ver mais, sonhar com o regresso a casa e  no fim, agradecer a oportunidade e pedir a todos os Deuses que esta viagem continue a correr bem!

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