Gratos no Golfo de Áden!

“In the sea we are all brothers!” foi o que nos disse o Capitão do navio da Marinha Paquistanesa quando os quatro de mãos juntas agradecíamos a ajuda que nos prestaram. Depois de 16 dias de calmarias alternadas com ventos e correntes de frente tínhamos gasto quase toda a tonelada de gasóleo com que carregamos o Benyleo para fazermos a delicada travessia do Sri Lanka para Eritreia. E a dois terços do percurso, justamente entre a Somália e o Iémen, estávamos a ficar sem combustível…  Impossibilitados de ir a terra, contactamos via VHF um navio que teve a iniciativa de comunicar a nossa situação à Marinha Francesa e através do telefone por satélite informamos o UKMTO (entidade inglesa que monitoriza a zona) da nossa necessidade. Foi organizado um encontro no dia seguinte e pelas 15 horas um navio de guerra aproximou-se lentamente. Era o ALAMGIR que generosamente nos passou a mangueira de abastecimento de gasóleo. Ainda perguntaram se precisávamos de mais alguma coisa, ao que o Armindo respondeu “farinha” e eu “água” quase ao mesmo tempo. Não que estivéssemos com poucos víveres, mas a farinha já era pouca e numa casa portuguesa, mesmo que flutuante, não pode faltar o pão! Assim, além dos 500 litros de gasóleo, enviaram-nos 20 kg de farinha, 30 litros de água engarrafada e 4 saquinhos com ofertas que nos arrebataram de vez o coração! 😊 Ainda cheios de cortisol a correr nas veias devido ao stress da operação, estávamos de repente a abrir embrulhos, qual Natal em pleno mês de maio!! Ofereceram-nos bonés, canecas, pins, chocolates, sumos e bolachas. Quanta gentileza e sensibilidade revelaram estes senhores do mar. Vimos por detrás das metralhadoras e dos canhões homens organizados, sorridentes e com orgulho do que estavam a fazer. E para nós, mais um episódio que jamais esqueceremos. Sim, Capitão, que ao menos no mar sejamos todos irmãos!!

A travessia do Golfo de Áden foi sem dúvida a travessia mais pensada, estudada e preparada de toda esta viagem de circum-navegação por vários motivos:

– Por ser uma longa travessia, cerca de 2500 milhas, que para um veleiro com uma velocidade média de 4 nós implica vinte e tal dias de mar;

-Por ser uma zona geográfica onde os ventos e as correntes poderão ser desfavoráveis;

-Por toda a zona do Golfo de Áden, na entrada sul do Mar Vermelho, ser considerada uma zona de risco de pirataria;

-E por sabermos que de fevereiro a abril (época de subir o Mar Vermelho) de 2018 tinha sido reportado um barco desaparecido, um veleiro seguido durante quatro horas por barcos suspeitos que se retiraram quando apareceram os navios de guerra que patrulhavam a zona, e 30 veleiros tinham passado sem quaisquer complicações.

Perante este cenário ponderamos muito sobre o caminho a seguir. As outras opções eram igualmente difíceis:

-Pôr o nosso Benyleo num navio que o levasse para o Mediterrâneo. Esta opção além de muito cara (cerca de 30 mil euros) poderia demorar vários meses a concretizar-se;

-Pagar a um skipper que levasse o barco para o Mediterrâneo. Além de também ser caro, o Armindo sentia dificuldade em confiar a nossa atual casa, com os problemas que tem, a outra pessoa. Também pensamos na possibilidade do Armindo ir com o skipper e eu e as crianças de avião, mas será que arranjaríamos quem aceitasse tal serviço no final da época favorável? E para quando?

-Ir por África do Sul fora da época favorável. Arriscar-nos-íamos a condições meteorológicas adversas e inviabilizaríamos o finalizar desta viagem juntos, já que a minha licença sem vencimento termina em setembro de 2018 e dentro desse período nunca conseguiríamos chegar no Benyleo aos Açores;

-Levar o barco para os Emirados, vende-lo e voltar de avião para casa.

Com certeza que poderiam ser imaginadas mais opções, mas estas foram as que ponderamos. Ouvimos também opiniões de velejadores confiantes e de outros que nos aconselharam a não o fazer. Ouvimos histórias de pirataria moderna e relatos favoráveis num grupo secreto do Facebook sobre o tema. Recebemos discursos de encorajamento de familiares e amigos e escolhemos continuar. Tivemos o apoio informativo da Marinha Portuguesa, que nos contactou de iniciativa própria e nos orientou para nos registrarmos no UKMTO e no MSCHOA, organizações que monitorizam a área e ás quais fomos sempre reportando o evoluir da travessia.

E depois de 21 dias de muito mar cintilante chegamos a Eritreia, aliviados e cheios de vontades terrenas!!!

(Desculpem não postar qualquer foto mas a internet na Eritreia é muito fraca e não consigo carregar as fotos para o site. Quando voltar a ter boa internet enriqueço o post 😉

 

2 Comments on “Gratos no Golfo de Áden!

  1. Muito obrigado por compartilharem estas aventuras tão intensas com todos os que gostariam de estar a fazer o mesmo e não podem. Sempre foi o meu desejo fazer o que vocês fazem. Que valor e que coragem! Deus vos abençoe e ajude a não desistir!

  2. Ufa!
    Que bom 🙂 aproveitem a Eritreia, parece que a capital é bem bonita e os Eritreus que conheci em Portugal são uma simpatia!
    Até já 🙂
    (Ah, sabem que em Agosto estamos nos Açores? Estão a prever chegar quando? Era giro encontrar-vos no regresso!)

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