Recepção surreal em Kalimantan!

Depois de uma semana de mar agreste com nuvens negras, chuvas, ventos e correntes de frente, barcos de pescadores e muito lixo flutuante; depois de uma constante dança de põe vela e tira vela, caça cabos e muda de bordos, liga motores e desliga motores; depois de navegar um mar que mais se assemelhava a um terreno de guerra minado tal era a quantidade de bóias com cofres para evitar, necessitamos parar para abastecimentos. Escolhemos uma pequena baía em Kalimantan, ilha indonésia partilhada com Borneo, para sermos rápidos e de forma a evitar burocracias. Combinamos com os irmãos do Armindo no início de março na Tailândia e ainda temos muitas milhas até lá chegar. Tentamos ancorar, mas a ancora não pegou, o fundo lamacento não permitiu agarrar. Encostamos a um pequeno cais seguindo o convite e as sinalizações de dois curiosos locais que observavam as nossas manobras frustradas. A eles juntaram-se mais meia dúzia de alegres crianças vindas não sei de onde. E depois mais três senhoras que entre a vergonha e a curiosidade sacaram do telemóvel e começaram a tirar-nos fotos. Em pouco mais de cinco minutos o arraial estava montado e naquela enchente de gente o incrível denominador comum, era o telemóvel!!

 

Ninguém falava inglês, mas a comunicação foi fluida, mostramos os bidões de água vazios e pouco depois tínhamos 40 litros de água engarrafada a entrar no Benyleo, mostramos os jerricans de gasóleo cheios de ar e em breve ali estava uma senhora de carrinho de mão de madeira com o precioso líquido, negro e de qualidade suspeita, mas que perante a necessidade foi bem-recebido. Foram acolhedores, honestos nos preços e ainda nos ofereceram uma fruta, que nunca tínhamos visto, para experimentar. Agradecemos e cooperamos na incrível sessão fotográfica que se montou! Alguns mais arrojados subiram para o barco enquanto o Armindo foi procurar quem trocasse dólares por rupias. Ao quinto tive de impor o limite, com sorrisos, claro! Estávamos tão perplexos quanto eles com o que se estava a passar, a curiosidade e o espanto eram mútuos. O Armindo voltou com o dinheiro e fruta. Aproveitei para descer do barco, queria ir procurar vegetais e espreitar a localidade, mas não consegui passar a pequena multidão porque toda a gente queria fotos, “selfies” com a estranha, e deduzo que rara, loira que chegou de barco à vela. Foi até me doerem as bochechas de tanto sorrir! Voltei ao barco e insisti pouco depois, de câmara ao ombro e postura de quem-agora-vai-tirar-fotos-sou-eu, saí do Benyleo. E voltei a desistir!!… Por falta de assertividade e aceitação de que nós é que somos os estranhos, nós é que somos a novidade do dia, e a prioridade é deles!!

 

 

Que experiência!!! Surreal Kalimantan!! Ficarão para sempre no nosso coração <3

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.