Sede de Viver

Viver no mar é acordar às 4 da manhã para fechar as escotilhas porque está a chover, ver que se está quase em cima de outro barco, levantar âncora debaixo de chuva e ventania, ancorar, ver o barco a descair e ter de levantar âncora para fundear novamente. É constantemente cuidar do barco como se fosse um filho pequeno. É passar a noite a fugir de nuvens negras e desligar a eletrónica por causa dos relâmpagos. É sentir a brisa do amanhecer e adorar o mar. É ficar feliz quando se diz – Terra à vista!!

Faz um ano que partimos de Ponta Delgada para uma grande viagem de dois anos e vamos exatamente a meio da nossa circum-navegação. Já vibramos a cruzar as linhas mestras – a linha do equador e o meridiano 180, que é onde se estreia o novo dia. E já nos adaptamos a esta ondulante forma de estar.

Temos visto ilhas e países incríveis, uns mais ricos em Natureza, outros em Cultura, todos nas suas gentes. Passado por lugares onde os homens usam saia e colares ao peito, onde as galinhas são animais vadios, onde se vive em paz sem eletricidade e água canalizada, onde o único meio de transporte é a piroga. Temos comido citrinos do tamanho de meloas, melancias cor de laranja, puré de fruta-pão com leite de coco e frutas a saber a rosas. Mas um dos melhores momentos que vivemos foi quando encontramos uma outra família portuguesa a velejar pelo mundo. Convivermos uma semana e ficarmos amigos para a vida. Porque a felicidade está nas relações. As paisagens encantam, os novos sabores deslumbram, mas na minha opinião, a nossa maior riqueza está em nos ligarmos a alguém e nos mantermos ligados àqueles que mais gostamos.

Temos velejado muito para deixar o Grande Pacífico, que nem sempre fez feito jus ao nome. Palmilhamos cerca de 5000 milhas náuticas em 40 dias para fugirmos da zona e da época dos furacões. Em breve, entraremos no Oceano Indico e o nosso primeiro porto será Timor Leste, um país que há muito desejo conhecer. Um dos mais jovens países do mundo, quer a nível de população, quer ao nível da constituição do país. Um povo com uma peculiar mistura cultural e quatro línguas oficiais, sendo o português uma delas. Um povo resiliente. Como nós, que apesar de vivermos momentos tão difíceis, queremos continuar nesta aventura. Escolhemos olhar para o lado bom e sentimos-nos privilegiados. Estamos a aproveitar intensamente a infância dos nossos filhos, a proporcionar-lhes experiências únicas, temos um estilo de vida saudável, reduzimos drasticamente a nossa pegada ecológica, estamos a conhecer as maravilhas de tantos países e suas tão diferentes formas de estar. Saciamos a nossa sede de viver. E por isto tudo, queremos continuar!

(Publicado no Jornal Açoriano Oriental a 6/11/2017)

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