… a viver no mar…

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“Tiveram que ir penar mágoas, desbaratar a saúde, enterrar o melhor da própria vida num mundo que não era o deles para atinarem com o encanto de tudo isto”. Não me comparo a um baleeiro mas projetei-me nesta de Dias de Melo. Tem sido duro… E as saudades… Sempre colhi este benefício das viagens – o adorar voltar para casa, o valorizar onde vivo e de onde sou – mas nesta, que é a maior viagem da minha vida, isto tem sido sentido no seu expoente máximo. Os Açores nunca foram tão lindos, o Porto tão genuíno, os amigos tão importantes, a família nunca me fez tanta falta!… Dizem que às vezes é preciso afastarmo-nos para dar valor ao que temos, não sei, eu sempre dei valor ao que tinha, mas que o afastamento me está trazer outro olhar, está!…

Somos uns afortunados pelas oportunidades que se nos deparam – conhecer o mundo, viver a viajar, educar os nossos filhos de uma forma tão individualizada – pelas oportunidades pelas quais lutamos tanto e seguimos lutando, porque esta vida de mar, está recheada de asperezas e dificuldades. Sem querer soar queixosa, queria passar a mensagem de que dar uma volta ao mundo de barco, em família, são rosas, cheias de espinhos!!!…

Na última grande travessia passamos quase um mês sem ver terra, em autonomia total, um mês a velejar noite e dia, um mês sem ver outras caras e ouvir outras vozes, um mês a gerir 500 litros de água para cinco pessoas, um mês a enfrentar a possibilidade do aparecimento de uma doença ou de um acidente, sem a possibilidade de ter suporte médico.

Mas depois aportamos em Hiva-Oa, na Polinésia Francesa, e sentimos que o prémio é alto.  E deixamo-nos invadir pela curiosidade e pelo otimismo, de que no futuro será mais fácil. E mostramos aos nossos filhos que a obstinação nos leva onde quisermos – Só não consegues o que não queres! – repete-lhes o pai quando se queixam. E nós, seguimos trabalhando, arranjando os mil e um problemas de uma casa feita para estar no mar mas que mesmo assim, é a custo que combate as mil e uma forças da Natureza.

O nosso ano letivo também acabou, passaremos 2 meses de férias neste paraíso, onde a maioria das mulheres usam flores frescas e perfumadas no cabelo, onde não são raros os homens com o corpo todo tatuado, onde as galinhas são animais vadios e à disposição de quem as quiser apanhar, como a fruta, abundante e acessível aos braços com vontade – tal é luxuria da Mana, a força viva e espiritual que conecta esta ilhas.

As crianças também sofrem com as saudades, mas sabem quão privilegiadas são de estar aqui, de crescer assim. Estão a aprender 3 línguas ao mesmo tempo, espanhol, francês e inglês com a mesma energia que aprenderam o português, por necessidade, com naturalidade. Aprendem a poupar e a valorizar tudo, porque hoje, compramos tomates, mas há um mês que isso não acontecia. E não sabemos quando se proporcionará tão simples e importante compra outra vez. E hoje, também fizemos um amigo, e isso, é coisa que vale milhões!

Viver assim é uma escolha. E hoje, escolhemos seguir velejando rumo aos nossos queridos Açores, por ocidente!

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(publicado no Jornal Açoriano Oriental a 13/07/2017)

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