1 ano de ensino doméstico, com cheiro a mar e sabor a frutos exóticos!

Chegamos ao fim do primeiro ano de ensino doméstico e fazemos uma reflexão, as duas, a minha filha de 7 anos e eu. Ela diz-me que gosta mais das aulas da professora Liliana, “mas assim também é bom, tenho menos aulas! 😉”. Eu digo-lhe que para mim foi um grande desafio e que estou contente com os nossos resultados. Como seria de esperar, esta experiência lectiva, com cheiro a mar e sabor a frutos exóticos, tem os seus prós e contras.

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Só por este tipo de ensino ser legal em Portugal é que pudemos encetar o projecto de uma volta ao mundo de barco, em família. Não é por acaso que até agora ainda não encontramos famílias espanholas com crianças em idade escolar a fazer o mesmo, é que no país vizinho é obrigatório que o ensino seja ministrado nas escolas. Mas embora seja legal, não foi fácil adoptá-lo. Nos Açores, as burocracias são muitas e se o conseguimos foi graças à preciosa colaboração da Professora Sara Massa e do Colégio do Castanheiro, que incansavelmente nos apoiaram e orientaram em todo o processo. A querida professora Liliana Oliveira, professora do 1º ano da minha filha, disponibilizou-nos material de apoio, os conteúdos programáticos, a prova de aferição do 2º ano, para que pudéssemos fazer a nossa avaliação, e mais importante do que tudo isto, deu-nos confiança e acreditou em mim e na Benita.

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Como não sou professora, optei por seguir os livros escolares escolhidos pelo Colégio. Depois estabeleci uma rotina, com horário e local de estudo bem definidos: a seguir ao almoço, enquanto o irmão de 4 anos dormia a sesta, nós as duas sentávamos-nos à mesa da sala, do barco. Dizia-lhe que escolhesse a disciplina e durante duas horas seguíamos os manuais escolares. Sim, durante este ano lectivo a Benita estudou cerca de 2 horas por dia e obteve uma excelente pontuação na prova de aferição – benefícios de um ensino individualizado e que no fundo não se reduziu a estas duas horas. IMG_1799De manhã, fazíamos actividades igualmente importantes, onde incluíamos o Leonardo – culinária, costura, pintura, carpintaria e exploração de livros e, sobretudo, de países novos! Onde paramos, além de museus e parques infantis fizemos paragem obrigatória na biblioteca local. O facto de os livros estarem noutra língua não os incomoda nem um pouco. Estão a aprender 3 idiomas ao mesmo tempo, espanhol, inglês e francês, assim como Geografia, História, Vela, Surf, e para mim, a mais fascinante de todas as aprendizagens – quão bela é a diversidade cultural humana. Graças ao ensino doméstico.

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Por outro lado, principalmente a Benita, sentiu muito a falta dos amigos. Perdeu as importantíssimas aprendizagens que se fazem no recreio, longe dos adultos. Fez novos amigos, mas superficiais, por motivos temporais… P1050825A gestão dos papeis de mãe e professora, foi-nos igualmente custosa. Eu sou a mãe e a Professora Liliana, que ficou nos Açores, foi e continua a ser a professora. E por fim, confirmei empiricamente, como tão nobre profissão, requer vocação. Motiva-los nos momentos difíceis, tolerar as distrações e desinteresses, impor limites sem apagar a chama da curiosidade ou danificar o laço que nos une. Não é fácil.

Para mim, o ensino doméstico é liberdade. É partir do princípio que os pais querem o melhor para os seus filhos. Acredito nisto. E principalmente naqueles que querem enveredar por este caminho, que não é o mais fácil, mas que pode trazer frutos incríveis!

10 Comments on “1 ano de ensino doméstico, com cheiro a mar e sabor a frutos exóticos!

  1. Nós já vivemos nos Açores (na Terceira) e foi curiosamente a partir daí que enveredámos pelo ensino doméstico. Actualmente, não seguimos manuais escolares. Também temos o sonho de viajar pelo mundo com os miúdos. É pouco provável que lá cheguemos algum dia, mas continuamos a sonhar.
    Os nossos 3 filhos em ensino doméstico (2, 7 e 11 anos) têm imensos amigos e consideramos que o tipo de convívio que têm fora da escola é de muito melhor qualidade do que o que tinham quando estavam na escola. A nossa filha mais velha (quase 15) decidiu ir para a escola no 7º ano e está agora a caminho do 10º. Essa experiência escolar tem-nos consolidado a ideia de que a escola de hoje não é um lugar recomendável nem “nutritivo”.
    Se quiserem saber mais sobre nós, deixo-vos os links dos blogs:
    O meu: http://arrumario.blogspot.pt/
    O da mãe Raquel: http://colherdemae.blogspot.pt/
    Continuação de bons ventos.
    Já se cruzaram com o “El Caracol”? Andam nas mesmas paragens. A esses conhecemos pessoalmente.
    Beijinhos e abraços.
    Zé Maria

    • Ainda não nos cruzamos com o Caracol mas está para breve, temos andado em comunicações 🙂 estou ansiosa por os conhecer e trocar experiências, inclusive relacionadas com o ensino doméstico! vou espreitar os vossos blogs, com certeza 🙂 a questão das amizades aqui é perturbada pela nossa constante mudança de país!!… vemos como fazem amizades facilmente e como se despedem com pesar, às vezs.. o quanto sentem a falta dos amigos dos açores… mas é mesmo assim. Estamos sempre atentos aos barcos com crianças 😉

  2. Muitos parabéns Beni!!! E parabéns a ti Joana!
    Não é fácil!!!!!!
    Boas férias às duas!!!!
    Um grande beijo a todos
    Isabel

  3. Parabéns pela força e coragem! Continuação de boa viagem, agora em férias escolares?! 😉 Beijinhos

  4. Grande Joana!
    Adoro-te imenso!
    Força ás duas, nesta experiencia maravillosa!

  5. Olá…familia.
    Como sabes sou professor nos Arrifes e este ano levei com grandes lições de vida o que se traduz num grande sistema nervoso em forma de vulcão dos Capelinhos…em explosão…
    Gostava de partilhar, replicar a experiência que a tua familia vive neste momento, pois acho que este modelo de ensino não é mais do que aquele hoje devemos fazer como evidencia que o sucesso é nestes moldes que vive e não noutro abrutalhado que coloca as crianças quadradas só porque nós professores temos medo de ser educados, ensinados etc por uma criança…bjs

  6. Um beijinho para todos, Joana! Tenho pensado muito em vocês, e compreendo perfeitamente as dificuldades que referes (eu também o sinto no meu dia-a-dia, quando tenho de estudar com os meus filhos. “Santos da casa não fazem milagres”, e a vocação e a preparação durante anos para se ser professor fazem muita diferença)… mas acredito que os benefícios que os teus filhos tiraram dessa experiência compensarão tudo o resto!
    Espreita o novo projeto que eu lancei há mais ou menos um mês, com pequenas sugestões para os pais fazerem os filhos, pode ser que te ajude com mais algumas ideias: http://www.coisasdepais.pt
    Beijinhos e tudo de bom para ti e para a tua família linda!

    • Obrigada Sara 🙂 sim, vou ler! Estou a ler A garrafa mágica pela 3ªvez aos meus meninos e sinto que cada vez admiram mais a tua história 🙂 e eu também!
      Beijinhos de toda a família!

  7. Olá,
    Que experiencia interessante!!!
    Nós temos o mesmo projecto, viajar pelo mundo e dar ensino a domicilio a nossas crianças.
    Pensei que isso fosse impossivel em Portugal.
    Entrei em contacto com todos os organismos de educação em portugal e foi-me negada essa possibilidade.
    Pelo facto de não estamos em portugal e pela exigencia de fazer as provas presencialmente nas escolas.
    É bom de saber que é possível.
    O nosso ptojecto é sermos voluntários num país da Ásia nos proximos 2 anos.
    Posso sabertentar como, conseguiu que aceitassem o ensino doméstico?

    • Olá Joana, o ensino doméstico está legislado em Portugal como sendo uma opção de ensino. No nosso caso, recorri à Direcção Regional da Educação dos Açores para me informar dos procedimentos e tive a preciosa ajuda da escola da Benita (Colégio do Castanheiro) no processo. Necessitámos de um relatório da Segurança Social e de assinar um termo de responsabilidade. Durante a viagem conheci outra família portuguesa a viver num barco que tinham 3 filhos também em ensino doméstico. Assim, sugiro que se informem na vossa DREducação e que insistam porque têm esse direito. Nós fomos informados que as únicas provas obrigatórias eram as nacionais, o que fez com que a Benita não tivesse de fazer qualquer prova para fazer, já que não há provas nacionais no 1º ciclo. Já agora, a minha filha fez comigo o 2º e o 3º ano, voltamos há 2 meses para os Açores e ela ingressou normalmente no 4º ano no Colégio do Castanheiro e está a correr muito bem, ela adorou voltar para a escola e a professora está muito satisfeita com os conhecimentos e preparação da Benita 🙂 um caso de sucesso, como todos os que conheço de ensino doméstico 😉

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