4 meses a velejar pelo Atlântico em família

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9 meses a viver num barco, 4 meses a velejar pelo Atlântico, mais de 7500 km de mar navegado.

Santa Maria, Porto Santo, Gran Canária, São Vicente, São Nicolau, Santo Antão, Marie-Galante, Dominica, Martinica, Santa Lúcia, Bequia, Mustique, Canouan, Mayreau, Grenada, Aruba – tantos nomes e que dizem tão pouco do que vivemos, da transformação por que passamos, dos desafios que tivemos de superar, das alegrias que sentimos, das belezas que apreciamos…

Escolhemos viver uma aventura de sonho. A parte que tem de arriscado, tem de sabor. Somos a primeira família açoriana que se propõe a fazer uma circum-navegação. Ouvimos críticas, mas foi mais forte o apoio para avançarmos e continuarmos. Agradecemos por isso. Recebemos um feedback precioso, cada mensagem, cada “like”, cada email, nos dá mais alento e já são tantos.

Viver a viajar, num barco, em família, é ter tempo para sermos nós a educar os nossos filhos, é poder educa-los num formato diferente, individualizado. É ver coisas novas quase todos os dias. É poder escolher quando e por onde ir.

Mas não são tudo calmarias, viver num barco, mudou muito a nossa vida e continuamente mudar de país, ainda mais. Além da óbvia redução de bens, num barco, a água e a energia passaram a ser bens preciosos, pois não temos dessalinizador e para fazer energia, contamos com 4 painéis solares, uma eólica e um gerador. Lavar a louça, só com água salgada e banhos de água doce, não podem exceder o 1,5l. por pessoa – por isso é que rapei o cabelo. Temos de sujar o mínimo de roupa possível porque não temos máquina de lavar e se em alguns países a lavandaria é um serviço acessível, noutros é impensável. Passamos por locais onde até para depositar o saco do lixo se tem de pagar. Numas ilhas, há fontes na via pública e nesses casos, carregamos para o dinghy, porque não podemos pagar Marinas, aos 4 jerricans de 50 l. de cada vez, para enchermos o nosso depósito. Mas há outras ilhas, com graves problemas de água, onde este bem tão essencial está acima das nossas possibilidades! Num barco, não podem haver distrações, como um frigorifico mal fechado ou um cabo por recolher. A meteorologia, toma o papel principal e Éolo, o Deus do vento, é que decide o caminho muitas vezes. ¾ da tripulação não percebia nada de vela, do que é morar numa casa flutuante – tivemos de aprender, de nos adaptar. Agora, vemos o nosso vocabulário a mudar.

Viajamos com 2 crianças pequenas, uma em idade escolar. Muda tudo numa viagem destas. Temos de ajustar a viagem ao ritmo deles, das sestas, das aulas, das distâncias que as pequenas pernas conseguem andar. Temos de satisfazer as tão diferentes necessidades de cada um, ajustar expectativas e encontrar concílios. Tivemos de aprender a viver tanto tempo, todos juntos. Longe dos que gostamos, tanto.

O percurso tem sido alteroso, com rajadas de incertezas e pontuado por convicções. Somos portugueses, as saudades apertam frequentemente, mas a curiosidade e vontade de ir por mares nunca antes navegados, por nós, continua a falar mais alto. Queremos continuar e isso induz-nos acreditar que escolhemos bem, vir por aqui.

(Publicado no Jornal Açoriano Oriental a 19/03/2017)

One Comment on “4 meses a velejar pelo Atlântico em família

  1. Muitos parabéns e que corra tudo sempre bem ao logo de toda a viagem.

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