Graham Hill numa palestra TED defende que retirar o supérfluo da vida é criar espaço para as coisas boas e propõe a seguinte formula: menos coisas, menos espaço = menos CO2, mais € e mais felicidade! 😀

Quando há dois anos deixamos a nossa casa para viver no Benyleo passamos por esse processo de simplificação com agrado. Seleccionar e deixar o supérfluo para trás soube bem, passar a viver com menos fazia sentido e facilitou a nossa vida. Porque  uma viagem à volta do mundo implica desprendimento, esvaziar para fazer face ao tanto que a odisseia nos trás. Tivemos de absorver tanto e tão rápido, adaptarmos-nos e superarmos-nos vezes sem conta, que não houve, nem há, tempo ou espaço para o que não é necessário. Às vezes a voz do consumismo e do materialismo ouvia-se perante as tantas maravilhas que o ser humano e a Natureza constroem mas viver num barco pequeno e que necessita estar leve para navegar bem, falava sempre mais alto. E neste sentido, voltaremos aos Açores com bem menos do que tínhamos quando partimos. Quase não levamos recordações materiais, levamos das outras que jamais se perdem ou estragam 🙂 e que até melhoram com o tempo! E levamos também uma preocupação cada vez mais vincada, a necessidade de proteger os oceanos e o equilíbrio deste nosso lindo planeta azul.  Vimos tanto lixo no mar…  No Sudeste Asiático, vimos com tristeza um Índico moribundo, sem peixe e tão cheio de lixo, que mesmo longe da costa, já sem terra à vista, era visível a mão nojenta de quem não respeita o espaço que é todos nós! Não respeitam sequer a mão que os alimenta…

E por isso insistimos na divulgação de boas práticas a bordo, muitas delas também aplicáveis a quem vive em terra!

  1. Fazer a divisão do lixo para a reciclagem. Cada vez existem mais projectos interessantes para a reutilização do nosso lixo.
  2. Redução ao máximo do consumo de plásticos. Implica evitar o uso de sacos plásticos, preferindo sacos de pano, mochilas ou sacos reutilizáveis, substituir as garrafas de água de plástico por garrafas reutilizáveis, não utilizar copos, talheres e pratos descartáveis, evitar cotonetes de plástico, molas de plástico para a roupa, preferir os brinquedos de madeira e tecido aos de plásticos, os produtos em embalagens grandes, ou familiares, ao comprar frutas e vegetais não colocar uma espécie por saco. Há anos que peço para me pesarem tudo sem saco e no final coloco tudo num só saco com todas as etiquetas do preço.
  3. Fazer limpezas conscientes, minimizando o consumo de água e utilizando produtos de limpeza biodegradáveis. O sabão branco e azul é excelente para lavar a louça e mais saudável e barato. O vinagre dissolvido em água lava muito bem o chão, mesas e armários.
  4. Utilização de energias renováveis. Os painéis solares e eólicas estão cada vez mais acessíveis
  5. Dar preferência à iluminação LED.
  6. Dar preferência a um motor de 4 tempos na embarcação auxiliar e remar sempre que possível.
  7. Abusar da bicicleta enquanto meio de transporte e preferir transportes públicos quando possível.
  8. Dar preferência à compra de produtos locais e espécies não ameaçadas.
  9. Colaborar e incentivar limpezas de praias e “pescar” resíduos flutuantes para os devolver a terra.
  10. Dar preferência à limpeza e pintura do casco fora de água e com tintas sem cobre ou outros produtos tóxicos.
  11. Promover a certificação para a sustentabilidade e qualidade ambiental da embarcação. Os Sailors for the Sea Portugal efectuam este tipo de certificações, assim como de “Clean Regatas”.

“A nossa contribuição para o progresso do mundo deve consistir em pôr em ordem a nossa própria casa.”
Gandhi

Desde o início desta viagem que me faz sentido partilhar o que nos propusemos a viver. A circum-navegação não é um sonho raro mas efectivamente fazê-la é sim, muito raro! Principalmente nos moldes a que nos propusemos, sozinhos, já que há outras modalidades, como a ARC – Round the World Rally que é uma organização que reúne grupos de barcos interessados, organizando-lhes esta odisseia e simplificando-lhes bastante a aventura!

Durante estes quase dois anos de viagem conhecemos muitos velejadores, agora é o nosso meio, a nossa pequena comunidade e não conhecemos mais nenhuns malucos com este objectivo concreto. Com certeza que os há mas a grande maioria saboreia o mar e os recantos do mundo com outra paz. Pois à custa desta loucura temos vivido momentos fantásticos mas também fases muito difíceis, fases que não se partilham no facebook por vários motivos, por poderem soar a queixume exagerado, por recearmos o julgamento fácil de quem não se pode ou não se consegue pôr no nosso lugar, por serem momentos íntimos, porque não são bonitos, porque não valem a pena registar… Se até a nossa memória se encarrega de os modificar e até por vezes esquecer, para que é que nós os havíamos de partilhar? Não é por queremos passar uma imagem da família feliz, da família perfeita, não, não queremos, não precisamos, não é verdadeira, apenas, na maioria das vezes só a parte boa é digna de registar e publicar. Procuro transmitir no nosso diário de bordo algumas das nossas dificuldades mas sem me repetir muito embora elas se repitam e persistam…

Nós, vocês, a Nestum, todos sabemos que as famílias perfeitas só existem na nossa cabeça, são apenas um ideal, mais nada! Nós e vocês somos verdadeiros, choramos, discutimos, irritamos-nos, perdemos a paciência, somos mais intolerantes do que gostávamos de ser, somos reais! E a Nestum escolheu associar-se a nós assim, por não querer “vender algo artificial”, porque embora já seja um conceito, quer preocupar-se com o ambiente e isso já lhe tira o sorriso que antes parecia eterno e perfeito. Os tempos mudam e onde alguns apenas vêem uma estratégia de marketing, nós vemos uma nova tendência, uma boa, de preocupação ambienta!  E nós vamos apoiar sempre as iniciativas boas, tenham elas as intenções que tiverem, desde sejam para proteger o nosso incrível planeta azul já valem, ignorar e não fazer nada é que não!! 😉

Soubemos de um português, em Lisboa, que se está a organizar para como nós se lançar na aventura de uma circum-navegação. Um amigo em comum perguntou-nos se podíamos partilhar a nossa experiência, ao que respondemos afirmativamente com o imediato conselho de que o faça num mínimo de três anos e não em dois como nós. Porque essa, foi uma dura descoberta! Sentimos frequentemente que estamos a fazer uma viagem apressada ao invés de uma viagem que devia estar a ser saboreada. Mesmo sabendo que nunca iríamos explorar todos os lugares por onde passássemos é com pesar que deixamos a maioria dos locais e suas gentes. E falamos em três anos, também, porque os dois anos nos estão a obrigar a navegar em condições desfavoráveis. Como agora, que subimos a Indonésia contra ventos e correntes para conseguirmos apanhar a época favorável mais à frente. E nestas alturas recordamos o nosso amigo Ângelo Felgueiras, que pergunta como é que se come um elefante e depois responde que é às fatias! Às vezes assustamos-nos quando vemos o tamanho do elefante, mas seguimos em frente, e fatia a fatia avançamos até alcançar o objetivo. Temos tido dias de apenas percorrermos uma dúzia de milhas, noutros as bóias, as redes e os próprios barcos dos pescadores, por vezes sem luz, obrigam-nos a recolher e ancorar ao final do dia, e já aconteceu termos de voltar para trás, tais eram as condições meteorológicas adversas. Chuvas, vento e falta de visibilidade têm pautado os nossos dias desde que saímos de Bali. E nós angustiamos, mas não desistimos, num dia a fatia é bem fininha, no outro será maior!!

Percebemos também, que em dois anos, não será possível fazermos a rota que inicialmente planeámos. Já não temos tempo para ir a Madagáscar, Moçambique, contornar África do Sul e navegar até ao Brasil como sonhámos, e a opção que nos resta é subir o Mar Vermelho, passar pelo canal de Suez e chegar à Europa pelo Mediterrâneo. Uma rota também interessante do ponto de vista turístico, mas bem mais arriscada do ponto de vista da navegação. Teremos de atravessar o Golfo de Áden, conhecido pelos ataques piratas. Teremos de contornar a Somália e evitar os mal-afamados Somalis… E foi nessa fase, de grande preocupação, que recebemos o apoio de uma entidade governamental – a Marinha Portuguesa escreveu-nos a disponibilizar-se para nos acompanhar nesta delicada travessia. Saiu-nos a sorte grande, recuperamos a confiança e agora miramos o futuro com mais tranquilidade. É interessante pensar que viemos para o mar porque ambicionávamos uma vida com mais aventura, sem rotina e ao sabor do vento, mas agora que a conquistamos, estamos a dar valor à tranquilidade, à estabilidade e à previsibilidade! E não é esta a nossa natureza? Querer o que não temos? Mais uma vez nos confrontamos com a necessidade de valorizar o que já temos, o que fazemos e com quem estamos. E que se calhar, já temos o que realmente importa. Ou que no mínimo, estamos a trilhar o caminho que pedimos! 😉

(Publicado no Jornal Açoriano Oriental a 18.2.2018)

Temos sido contatados por algumas famílias de ambição igual à nossa, viverem livres e educarem os filhos a viajar, literalmente ao sabor do vento! Ficamos felizes quando surge mais uma com pelo menos a sementinha a germinar. E porque achamos que é uma pena ver portugueses e brasileiros de costas voltadas para o mar, porque sabemos que é mais seguro, mais fácil e mais barato do que as pessoas pensam, e porque nos parece que não é um sonho raro, postamos aqui algumas dicas úteis para quem planeia uma aventura marítima! 😉 Claro que não queremos enganar ninguém e por isso salientamos – é uma vida de trabalho e com muitos momentos difíceis!! – Mas isto é comum à vida de terra, nós é que já estamos adaptados. E se calhar demais!…

Bem, começamos pela escolha do barco, para nós foram três anos de muita pesquisa em sites como o http://www.yachtworld.co.uk/ e o Cosas de Barcos. Eu digo mesmo que o Armindo fez um doutoramento na área, a julgar pelas horas que passou em frente ao computador nesta pesquisa!!! Mas é necessário, pois é uma decisão muito importante e o maior investimento de um projeto como este. Os barcos são caros e os catamarãs bem mais dispendiosos do que os monoscascos, mas também mais espaçosos, luminosos, arejados e estáveis! Há muitos fatores a considerar, a idade do barco, a resistência, o número de horas dos motores, os extras, etc..

A segunda fase é a adaptação do barco para a autonomia, uma fase que também implica muito estudo e possivelmente, o segundo maior investimento financeiro de toda a viagem. Painéis solares, eólicas, baterias, aumento dos depósitos de gasóleo e de água, revisão total dos motores, construção de um sistema de recolha de água da chuva ou ponderar a aquisição de um dessalinizador, aquisição de uma arca congeladora e de uma mega-farmácia! Também é importante não esquecer a compra de peças suplentes, já que demoram a chegar e são sempre necessárias, ferramentas e alternativas ao dinghy, que se pode perder, danificar ou ser roubado. Uma canoa ou padles são boas ideias e trazem muita diversão para quem vive no meio aquático.

E o orçamento? Não há valores padrão, é como perguntar a dez famílias diferentes que morem em terra quanto gastam em média, as dez terão valores bem diferentes, não é? Nós, e outros velejadores com quem temos falado, no mar gastamos bem menos do que gastávamos em terra, isso é assente. Já não pagamos escolas, ginásios, atividades extra-escolares, água, luz, net, concertos, roupa, empregada e aqueles extras de quem está mais exposto ao marketing. Até a despesa de supermercado é menor porque na maior parte do mundo não existe a oferta a que estamos habituados. Há sítios onde a conta de supermercado é maior, mas noutros é menor por isso anda ela por ela. Claro que o nosso de viajar é um modo poupado, com tanta coisa espectacular gratuita para fazer não andamos a pagar excursões, alugar carros (andaadapmos à boleia, ou de transportes públicos), não frequentamos marinas e lavamos muita roupa à mão porque a lavandaria ás vezes sai cara. E pescamos muito! Se também o fizerem contem com peixe fresco gratuito em todo o mundo! Há uma despesa com a qual as gentes de mar têm de contar, os vistos e papeladas de entrada em alguns países. Na maioria dos países os procedimentos são simples e acessíveis, mas noutros são o oposto, como no Ecoador, Colômbia, Indonésia e Índia.

A parte bancária… Sugerimos que se levem euros e dólares em “dinheiro vivo” pois são moedas aceites em quase todo o mundo e assim evitam-se as taxas, além de permitirem o estar-se sempre prevenido. Uma dica que muito nos agradou foi a do cartão de crédito REVOLUT, que permite fazer pagamentos na moeda do país em que se está, evitando mais uma vez as mafarricas taxas. Este cartão também permite a consulta na hora e o bloqueio e desbloqueio imediato do cartão através de uma aplicação no telemóvel.

Os seguros… Os seguros de barcos e de viagem são um abuso, pediram-nos 6000€ por ano!… dissemos que não e fizemos um seguro de um mês, até sair da Europa, depois não o renovamos mais. Viajamos sem seguro e em lado nenhum nos pedem algo a ver com isto. Só quando voltarmos à Europa é que teremos de voltar a fazer outro. Se acontecer algo, acarretaremos com as consequências. Embora quase todos os yachts que conhecemos andem assim não vos aconselho a fazer o mesmo, claro!!

Ensino Doméstico – Felizmente cada vez mais divulgado em Portugal, não é um bicho de setes cabeças, um email à Direção Regional de Educação a solicitar instruções deve bastar para se saber como faz. E a viajar, seguramente que as vossas crianças não terão falta de estímulos 😉

Internet e telefone por satélite – Por acharmos caro não temos internet a bordo, só quando vamos a terra é que comunicamos e ficamos contactáveis. Mas sabemos que existe o Iridium go que disponibiliza net (fraca) por 150€/mês, além de permitir fazer chamadas no meio do mar. Dentro das comunicações, nós usamos o SPOT, um pequeno aparelho com 2 importantes botões, um que envia a nossa localização para um link que pode ser consultado por quem quisermos (e que vai construindo a nossa rota num mapa virtual) e outro, só para ser accionado em caso de emergência/risco de vida e que garante o resgate em qualquer parte do mundo! A localização de um barco também pode ser consultada no site marinetraffic.com, através do nome do barco. Este último método nem sempre funciona e principalmente na travessias oceânicas…

Cartas marítimas – Nós usamos principalmente as cartas da Navionics num Ipad, e compramo-las à medida que vamos precisando para não sobrecarregar o aparelho. Salientamos que fica mais barata a versão para smartphones e tablets do que a versão para barcos!!… E porque o plano B nestes casos é essencial também usamos as cartas do Open CPN no nosso computador. É um programa que se encontra facilmente na internet, gratuito, um pouco menos intuitivo, mas é como tudo, com exploração e prática chega-se lá! 😊

O que levar? Nesta área acreditem que vão precisar de muito menos do que imaginam! No mar além de se usar pouca roupa, deixa de existir aquela necessidade de variar. E se levarem roupa a mais, além de ser um peso desnecessário estraga-se e ganha mofo!! Aquilo que se usa mais são fatos de banho, t-shirts, calções e chinelos de praia e por isso só estes itens valem a pena ter em alguma quantidade. Saliento que são fáceis de comprar em todo o mundo, por isso não é necessário partir com tudo o que acham que vão necessitar! Quanto a material de cozinha, o mínimo também chega, graças ao fenómeno da seleção natural da culinária mais complicada! Livros são os nossos melhores amigos, mas também pesam, nós já nos adaptamos aos e-books. Música, filmes e guias é algo que se vai trocando com as gentes dos outros barcos 😉

Mais alguma questão? 😊

Estas informações são totalmente fruto da nossa experiência e se vos forem úteis partilhem, pois pode ser que sejam úteis a mais alguém! E se tiverem mais dicas pertinentes partilhem-nas nos comentários, ficamos todos a saber!! Obrigada!

 

 

A necessidade desenvolve o engenho e com certeza não foi coincidência que a Green School tenha nascido em Bali. Esta ilha da Indonésia é o perfeito e mais triste exemplo do que a sobrexploração turística faz a uma ilha paradisíaca… O mar é o mais poluído que já vimos nesta meia volta ao mundo e em terra, parece que os “homens do lixo” estão de greve há anos!…

À primeira vista Bali encanta, as praias ao longe são lindas, o verde vinga em qualquer cm2, o misticismo do hinduísmo e a incrível oferta turística quase nos cegam. Mas por muito que o entusiamo iluda sente-se a poluição do ar, vive-se o trânsito diariamente caótico, vê-se o lixo pelas ruas e cheira-se a podridão do mar…. Já são 40 anos de turismo desenfreado e o processo deve ter sido tal maneira gradual que os habitantes parecem conformados com o que lhes resta e continuam a pedir mais turistas… Não estão informados de que as suas maiores riquezas lhes foram roubadas – a paz e a saúde!…

 

Li um artigo científico de que não há um exemplo de uma localidade que depois de explorada turisticamente tenha ficado melhor e, no entanto, essa é a aposta de Portugal e dos Açores… dizem que é o Nosso destino!! Medo, agora, dá-me medo… Também aqui gritam Sustentabilidade, Ecologia e Biodegradável aos sete ventos… E também aqui o dinheiro está acima de tudo isso…

Mas nem tudo é mau e a esperança acende velas novas todos os dias. Foi em Bali que surgiu a Green School em 2008, uma escola toda feita em bamboo no meio da selva, onde a Ecologia, o Biodegradável e a Sustentabilidade se juntam à Empatia, Confiança, Responsabilidade, Integridade, Equidade e Paz para erguerem os seus pilares. Uma escola sem paredes que está a educar cerca de 400 crianças de 31 nacionalidades para serem pensadores e atores na proteção e preservação ambiental deste nosso planeta. Falam de educação holística, empreendedorismo social e aprendem por projetos. Vimos alguns, uma estufa-laboratório de hidropónica que aproveita a água de uns velhos lagos de peixes para cultivar legumes, todo desenvolvido por alunos, o autocarro escolar que anda com o óleo da cozinha (transformado em biofuel, que por sua vez depois de usado se transforma em glicerina e com a qual fazem sabonetes e detergentes que usam na escola), a estação de divisão do lixo e a zona de compostagem, também geridas por estudantes. À entrada têm uma loja aberta ao público de venda de roupas e artigos em segunda mão, para salientar a prioridade da reutilização e suprir necessidades da comunidade. Sim, também têm preocupações e projetos comunitários, qualquer um pode ir à escola abastecer de água potável, filtrada pela escola, disponibilizam aulas de inglês quase-gratuitas (em troca de meia dúzia de kg de lixo recolhido na comunidade, para sensibilizar) e as crianças locais podem recorrer a bolsas de estudo, financiadas por mecenas e pelas visitas dos turistas à escola.

 

E muitos outros projetos ambientais lutam diariamente nesta ilha para fazer frente à corrente. Mas nenhum arquitetonicamente tão bonito 😉

Viver no mar é acordar às 4 da manhã para fechar as escotilhas porque está a chover, ver que se está quase em cima de outro barco, levantar âncora debaixo de chuva e ventania, ancorar, ver o barco a descair e ter de levantar âncora para fundear novamente. É constantemente cuidar do barco como se fosse um filho pequeno. É passar a noite a fugir de nuvens negras e desligar a eletrónica por causa dos relâmpagos. É sentir a brisa do amanhecer e adorar o mar. É ficar feliz quando se diz – Terra à vista!!

Faz um ano que partimos de Ponta Delgada para uma grande viagem de dois anos e vamos exatamente a meio da nossa circum-navegação. Já vibramos a cruzar as linhas mestras – a linha do equador e o meridiano 180, que é onde se estreia o novo dia. E já nos adaptamos a esta ondulante forma de estar.

Temos visto ilhas e países incríveis, uns mais ricos em Natureza, outros em Cultura, todos nas suas gentes. Passado por lugares onde os homens usam saia e colares ao peito, onde as galinhas são animais vadios, onde se vive em paz sem eletricidade e água canalizada, onde o único meio de transporte é a piroga. Temos comido citrinos do tamanho de meloas, melancias cor de laranja, puré de fruta-pão com leite de coco e frutas a saber a rosas. Mas um dos melhores momentos que vivemos foi quando encontramos uma outra família portuguesa a velejar pelo mundo. Convivermos uma semana e ficarmos amigos para a vida. Porque a felicidade está nas relações. As paisagens encantam, os novos sabores deslumbram, mas na minha opinião, a nossa maior riqueza está em nos ligarmos a alguém e nos mantermos ligados àqueles que mais gostamos.

Temos velejado muito para deixar o Grande Pacífico, que nem sempre fez feito jus ao nome. Palmilhamos cerca de 5000 milhas náuticas em 40 dias para fugirmos da zona e da época dos furacões. Em breve, entraremos no Oceano Indico e o nosso primeiro porto será Timor Leste, um país que há muito desejo conhecer. Um dos mais jovens países do mundo, quer a nível de população, quer ao nível da constituição do país. Um povo com uma peculiar mistura cultural e quatro línguas oficiais, sendo o português uma delas. Um povo resiliente. Como nós, que apesar de vivermos momentos tão difíceis, queremos continuar nesta aventura. Escolhemos olhar para o lado bom e sentimos-nos privilegiados. Estamos a aproveitar intensamente a infância dos nossos filhos, a proporcionar-lhes experiências únicas, temos um estilo de vida saudável, reduzimos drasticamente a nossa pegada ecológica, estamos a conhecer as maravilhas de tantos países e suas tão diferentes formas de estar. Saciamos a nossa sede de viver. E por isto tudo, queremos continuar!

(Publicado no Jornal Açoriano Oriental a 6/11/2017)