(English version above)
A viagem começou muito antes de soltarmos amarras rumo ao infinito azul, porque sonhar, planear e construir já faz parte da viagem. Nessa fase já se é invadido pela excitação, já se sente o sabor do que aí vem. E quando acaba? Não foi de certeza no dia em que regressamos à Marina de Ponta Delgada, quase dois anos após a partida, porque um mês passada esta data vivemos ainda em função dela, vivemos ligados a esta viagem que não se limita à ação de circum-navegar o mundo com crianças, é maior, é uma viagem interior, de superação de limites físicos, psicológicos e sociais. É uma viagem que ainda se está a fazer e com tanto para nos dar e aos que nos rodeiam. Tivemos o convite do Clube Naval de Ponta Delgada e da parte de  duas escolas para contarmos a nossa história. Tentaremos inspirar os participantes da Space Apps Challenge, numa competição internacional promovida pela NASA, aqui, no NONAGON, na Lagoa 🙂 e mais virão!
    Vivemos tempos de alegria, recheados de reencontros com os amigos, com a família, com os que viajaram connosco através do blog, com os que inspiramos e que tanto nos tocam também. Confrontamos-nos com as crianças tão crescidas, com os edifícios restaurados, com os restaurantes cheios de turistas, com a ilha que também mudou. É bom ver como pelo menos e para já, o alojamento local se sobrepõe à construção de grandes hotéis, o Governo a apostar no desenvolvimento sustentável, a incineradora  que não avançou, o Tremor que já se podia chamar Terramoto! Não está a ser difícil adaptarmos-nos à vida de terra, que embora seja mais complexa que a vida no mar, é também mais recheada de conforto e mãos amigas. A Benita e o Leonardo vão de mãos dadas para escola que escolheram e regressam suados de alegria e novidades para contar. Nós, os adultos, digerimos de forma mais lenta, estamos contentes por voltar mas ainda sem ter a certeza do caminho que queremos tomar. A viagem, que ficará para sempre dentro de nós, ainda está a latejar. Emocionamos-nos a contar as histórias e damos por nós a refletir sobre determinadas experiências que tanto nos fizeram crescer e com outro tanto por dissecar. Percebemos cada vez melhor a dimensão do que nos aconteceu, ou melhor, do que fizemos acontecer! Disse-nos o Jules, o amigo septuagenário inglês, nascido na Eritreia, que conhecemos no Sudão, e que fez connosco a última travessia desta circum-navegação, you have not come into this world to face reality, you have come to create reality!“. Sábias palavras, amigo Jules, nós somos responsáveis pela nossa realidade, por muito estranho e doloroso que isso às vezes possa parecer, e isso dá-nos um poder imenso. Agora sim, acreditamos, que podemos fazer acontecer tudo o que quisermos, e começa-se por sonhar!
Felizes no dia da chegada a Ponta Delgada, Ilha de São Miguel, Açores
English version:

The journey began long before we sailed to the infinite blue, because dreaming, planning and building is already part of the journey. At this stage we were already invaded by the excitement, already feelling the taste of what was about to come. And when does it end? It was certainly not in the day we returned to the Marina of Ponta Delgada, almost two years after the departure, because a month after that date we still live for it, we live connected to this trip that is not limited to the action of circumnavigating the world with children, is bigger, it is an inner journey, of overcoming physical, psychological and social limits. It is a trip that is still going on and with so much to give us and those around us. We had the invitation of the Clube Naval de Ponta Delgada and two schools to tell our story. We will try to inspire the participants in the Space Apps Challenge, an international competition hosted by NASA here at NONAGON in Lagoa 🙂 and there is more to come!

We live in times of joy, filled with re-encounters with friends, with the family, with those who traveled with us through the blog, with people we inspire and touched us so much. We are daily confronted with the grown-up children, the restored buildings, the restaurants filled with tourists, with the island that has also changed. It is good to see how, at least for now, local accommodation overlaps the construction of large hotels, the Government betting on sustainable development, the incinerator that has not advanced, the Tremor that could already be called Earthquake! It is not difficult to adapt to earth life, which although more complex than life at sea, is also more filled with comfort and friendly hands. Benita and Leonardo go hand in hand to the school they have chosen and come back sweaty with joy and news to tell. We, adults, digest slower, we’re glad to be back but still not sure which way we want to go. The journey, which will be forever inside us, is still throbbing. We are excited to tell the stories and think for ourselves about certain experiences that have made us grow. We perceive more and more the dimension of what happened to us, or rather what we made happen! Jules, the septuagenarian English friend, born in Eritrea, whom we met in Sudan, and who made with us the last crossing of this circum-navigation said “you have not come into this world to face reality, you have come to create reality ! “. Wise words, friend Jules, we are responsible for our reality, however strange and painful this may seem at times, this gives us immense power. Now, we believe, we can make everything happen, starting by dreaming!!

(publicado no Jornal Açoriano Oriental a 1/10/2018)

Graham Hill numa palestra TED defende que retirar o supérfluo da vida é criar espaço para as coisas boas e propõe a seguinte formula: menos coisas, menos espaço = menos CO2, mais € e mais felicidade! 😀

Quando há dois anos deixamos a nossa casa para viver no Benyleo passamos por esse processo de simplificação com agrado. Seleccionar e deixar o supérfluo para trás soube bem, passar a viver com menos fazia sentido e facilitou a nossa vida. Porque  uma viagem à volta do mundo implica desprendimento, esvaziar para fazer face ao tanto que a odisseia nos trás. Tivemos de absorver tanto e tão rápido, adaptarmos-nos e superarmos-nos vezes sem conta, que não houve, nem há, tempo ou espaço para o que não é necessário. Às vezes a voz do consumismo e do materialismo ouvia-se perante as tantas maravilhas que o ser humano e a Natureza constroem mas viver num barco pequeno e que necessita estar leve para navegar bem, falava sempre mais alto. E neste sentido, voltaremos aos Açores com bem menos do que tínhamos quando partimos. Quase não levamos recordações materiais, levamos das outras que jamais se perdem ou estragam 🙂 e que até melhoram com o tempo! E levamos também uma preocupação cada vez mais vincada, a necessidade de proteger os oceanos e o equilíbrio deste nosso lindo planeta azul.  Vimos tanto lixo no mar…  No Sudeste Asiático, vimos com tristeza um Índico moribundo, sem peixe e tão cheio de lixo, que mesmo longe da costa, já sem terra à vista, era visível a mão nojenta de quem não respeita o espaço que é todos nós! Não respeitam sequer a mão que os alimenta…

E por isso insistimos na divulgação de boas práticas a bordo, muitas delas também aplicáveis a quem vive em terra!

  1. Fazer a divisão do lixo para a reciclagem. Cada vez existem mais projectos interessantes para a reutilização do nosso lixo.
  2. Redução ao máximo do consumo de plásticos. Implica evitar o uso de sacos plásticos, preferindo sacos de pano, mochilas ou sacos reutilizáveis, substituir as garrafas de água de plástico por garrafas reutilizáveis, não utilizar copos, talheres e pratos descartáveis, evitar cotonetes de plástico, molas de plástico para a roupa, preferir os brinquedos de madeira e tecido aos de plásticos, os produtos em embalagens grandes, ou familiares, ao comprar frutas e vegetais não colocar uma espécie por saco. Há anos que peço para me pesarem tudo sem saco e no final coloco tudo num só saco com todas as etiquetas do preço.
  3. Fazer limpezas conscientes, minimizando o consumo de água e utilizando produtos de limpeza biodegradáveis. O sabão branco e azul é excelente para lavar a louça e mais saudável e barato. O vinagre dissolvido em água lava muito bem o chão, mesas e armários.
  4. Utilização de energias renováveis. Os painéis solares e eólicas estão cada vez mais acessíveis
  5. Dar preferência à iluminação LED.
  6. Dar preferência a um motor de 4 tempos na embarcação auxiliar e remar sempre que possível.
  7. Abusar da bicicleta enquanto meio de transporte e preferir transportes públicos quando possível.
  8. Dar preferência à compra de produtos locais e espécies não ameaçadas.
  9. Colaborar e incentivar limpezas de praias e “pescar” resíduos flutuantes para os devolver a terra.
  10. Dar preferência à limpeza e pintura do casco fora de água e com tintas sem cobre ou outros produtos tóxicos.
  11. Promover a certificação para a sustentabilidade e qualidade ambiental da embarcação. Os Sailors for the Sea Portugal efectuam este tipo de certificações, assim como de “Clean Regatas”.

“A nossa contribuição para o progresso do mundo deve consistir em pôr em ordem a nossa própria casa.”
Gandhi

Desde o início desta viagem que me faz sentido partilhar o que nos propusemos a viver. A circum-navegação não é um sonho raro mas efectivamente fazê-la é sim, muito raro! Principalmente nos moldes a que nos propusemos, sozinhos, já que há outras modalidades, como a ARC – Round the World Rally que é uma organização que reúne grupos de barcos interessados, organizando-lhes esta odisseia e simplificando-lhes bastante a aventura!

Durante estes quase dois anos de viagem conhecemos muitos velejadores, agora é o nosso meio, a nossa pequena comunidade e não conhecemos mais nenhuns malucos com este objectivo concreto. Com certeza que os há mas a grande maioria saboreia o mar e os recantos do mundo com outra paz. Pois à custa desta loucura temos vivido momentos fantásticos mas também fases muito difíceis, fases que não se partilham no facebook por vários motivos, por poderem soar a queixume exagerado, por recearmos o julgamento fácil de quem não se pode ou não se consegue pôr no nosso lugar, por serem momentos íntimos, porque não são bonitos, porque não valem a pena registar… Se até a nossa memória se encarrega de os modificar e até por vezes esquecer, para que é que nós os havíamos de partilhar? Não é por queremos passar uma imagem da família feliz, da família perfeita, não, não queremos, não precisamos, não é verdadeira, apenas, na maioria das vezes só a parte boa é digna de registar e publicar. Procuro transmitir no nosso diário de bordo algumas das nossas dificuldades mas sem me repetir muito embora elas se repitam e persistam…

Nós, vocês, a Nestum, todos sabemos que as famílias perfeitas só existem na nossa cabeça, são apenas um ideal, mais nada! Nós e vocês somos verdadeiros, choramos, discutimos, irritamos-nos, perdemos a paciência, somos mais intolerantes do que gostávamos de ser, somos reais! E a Nestum escolheu associar-se a nós assim, por não querer “vender algo artificial”, porque embora já seja um conceito, quer preocupar-se com o ambiente e isso já lhe tira o sorriso que antes parecia eterno e perfeito. Os tempos mudam e onde alguns apenas vêem uma estratégia de marketing, nós vemos uma nova tendência, uma boa, de preocupação ambienta!  E nós vamos apoiar sempre as iniciativas boas, tenham elas as intenções que tiverem, desde sejam para proteger o nosso incrível planeta azul já valem, ignorar e não fazer nada é que não!! 😉

Soubemos de um português, em Lisboa, que se está a organizar para como nós se lançar na aventura de uma circum-navegação. Um amigo em comum perguntou-nos se podíamos partilhar a nossa experiência, ao que respondemos afirmativamente com o imediato conselho de que o faça num mínimo de três anos e não em dois como nós. Porque essa, foi uma dura descoberta! Sentimos frequentemente que estamos a fazer uma viagem apressada ao invés de uma viagem que devia estar a ser saboreada. Mesmo sabendo que nunca iríamos explorar todos os lugares por onde passássemos é com pesar que deixamos a maioria dos locais e suas gentes. E falamos em três anos, também, porque os dois anos nos estão a obrigar a navegar em condições desfavoráveis. Como agora, que subimos a Indonésia contra ventos e correntes para conseguirmos apanhar a época favorável mais à frente. E nestas alturas recordamos o nosso amigo Ângelo Felgueiras, que pergunta como é que se come um elefante e depois responde que é às fatias! Às vezes assustamos-nos quando vemos o tamanho do elefante, mas seguimos em frente, e fatia a fatia avançamos até alcançar o objetivo. Temos tido dias de apenas percorrermos uma dúzia de milhas, noutros as bóias, as redes e os próprios barcos dos pescadores, por vezes sem luz, obrigam-nos a recolher e ancorar ao final do dia, e já aconteceu termos de voltar para trás, tais eram as condições meteorológicas adversas. Chuvas, vento e falta de visibilidade têm pautado os nossos dias desde que saímos de Bali. E nós angustiamos, mas não desistimos, num dia a fatia é bem fininha, no outro será maior!!

Percebemos também, que em dois anos, não será possível fazermos a rota que inicialmente planeámos. Já não temos tempo para ir a Madagáscar, Moçambique, contornar África do Sul e navegar até ao Brasil como sonhámos, e a opção que nos resta é subir o Mar Vermelho, passar pelo canal de Suez e chegar à Europa pelo Mediterrâneo. Uma rota também interessante do ponto de vista turístico, mas bem mais arriscada do ponto de vista da navegação. Teremos de atravessar o Golfo de Áden, conhecido pelos ataques piratas. Teremos de contornar a Somália e evitar os mal-afamados Somalis… E foi nessa fase, de grande preocupação, que recebemos o apoio de uma entidade governamental – a Marinha Portuguesa escreveu-nos a disponibilizar-se para nos acompanhar nesta delicada travessia. Saiu-nos a sorte grande, recuperamos a confiança e agora miramos o futuro com mais tranquilidade. É interessante pensar que viemos para o mar porque ambicionávamos uma vida com mais aventura, sem rotina e ao sabor do vento, mas agora que a conquistamos, estamos a dar valor à tranquilidade, à estabilidade e à previsibilidade! E não é esta a nossa natureza? Querer o que não temos? Mais uma vez nos confrontamos com a necessidade de valorizar o que já temos, o que fazemos e com quem estamos. E que se calhar, já temos o que realmente importa. Ou que no mínimo, estamos a trilhar o caminho que pedimos! 😉

(Publicado no Jornal Açoriano Oriental a 18.2.2018)

Temos sido contatados por algumas famílias de ambição igual à nossa, viverem livres e educarem os filhos a viajar, literalmente ao sabor do vento! Ficamos felizes quando surge mais uma com pelo menos a sementinha a germinar. E porque achamos que é uma pena ver portugueses e brasileiros de costas voltadas para o mar, porque sabemos que é mais seguro, mais fácil e mais barato do que as pessoas pensam, e porque nos parece que não é um sonho raro, postamos aqui algumas dicas úteis para quem planeia uma aventura marítima! 😉 Claro que não queremos enganar ninguém e por isso salientamos – é uma vida de trabalho e com muitos momentos difíceis!! – Mas isto é comum à vida de terra, nós é que já estamos adaptados. E se calhar demais!…

Bem, começamos pela escolha do barco, para nós foram três anos de muita pesquisa em sites como o http://www.yachtworld.co.uk/ e o Cosas de Barcos. Eu digo mesmo que o Armindo fez um doutoramento na área, a julgar pelas horas que passou em frente ao computador nesta pesquisa!!! Mas é necessário, pois é uma decisão muito importante e o maior investimento de um projeto como este. Os barcos são caros e os catamarãs bem mais dispendiosos do que os monoscascos, mas também mais espaçosos, luminosos, arejados e estáveis! Há muitos fatores a considerar, a idade do barco, a resistência, o número de horas dos motores, os extras, etc..

A segunda fase é a adaptação do barco para a autonomia, uma fase que também implica muito estudo e possivelmente, o segundo maior investimento financeiro de toda a viagem. Painéis solares, eólicas, baterias, aumento dos depósitos de gasóleo e de água, revisão total dos motores, construção de um sistema de recolha de água da chuva ou ponderar a aquisição de um dessalinizador, aquisição de uma arca congeladora e de uma mega-farmácia! Também é importante não esquecer a compra de peças suplentes, já que demoram a chegar e são sempre necessárias, ferramentas e alternativas ao dinghy, que se pode perder, danificar ou ser roubado. Uma canoa ou padles são boas ideias e trazem muita diversão para quem vive no meio aquático.

E o orçamento? Não há valores padrão, é como perguntar a dez famílias diferentes que morem em terra quanto gastam em média, as dez terão valores bem diferentes, não é? Nós, e outros velejadores com quem temos falado, no mar gastamos bem menos do que gastávamos em terra, isso é assente. Já não pagamos escolas, ginásios, atividades extra-escolares, água, luz, net, concertos, roupa, empregada e aqueles extras de quem está mais exposto ao marketing. Até a despesa de supermercado é menor porque na maior parte do mundo não existe a oferta a que estamos habituados. Há sítios onde a conta de supermercado é maior, mas noutros é menor por isso anda ela por ela. Claro que o nosso de viajar é um modo poupado, com tanta coisa espectacular gratuita para fazer não andamos a pagar excursões, alugar carros (andaadapmos à boleia, ou de transportes públicos), não frequentamos marinas e lavamos muita roupa à mão porque a lavandaria ás vezes sai cara. E pescamos muito! Se também o fizerem contem com peixe fresco gratuito em todo o mundo! Há uma despesa com a qual as gentes de mar têm de contar, os vistos e papeladas de entrada em alguns países. Na maioria dos países os procedimentos são simples e acessíveis, mas noutros são o oposto, como no Ecoador, Colômbia, Indonésia e Índia.

A parte bancária… Sugerimos que se levem euros e dólares em “dinheiro vivo” pois são moedas aceites em quase todo o mundo e assim evitam-se as taxas, além de permitirem o estar-se sempre prevenido. Uma dica que muito nos agradou foi a do cartão de crédito REVOLUT, que permite fazer pagamentos na moeda do país em que se está, evitando mais uma vez as mafarricas taxas. Este cartão também permite a consulta na hora e o bloqueio e desbloqueio imediato do cartão através de uma aplicação no telemóvel.

Os seguros… Os seguros de barcos e de viagem são um abuso, pediram-nos 6000€ por ano!… dissemos que não e fizemos um seguro de um mês, até sair da Europa, depois não o renovamos mais. Viajamos sem seguro e em lado nenhum nos pedem algo a ver com isto. Só quando voltarmos à Europa é que teremos de voltar a fazer outro. Se acontecer algo, acarretaremos com as consequências. Embora quase todos os yachts que conhecemos andem assim não vos aconselho a fazer o mesmo, claro!!

Ensino Doméstico – Felizmente cada vez mais divulgado em Portugal, não é um bicho de setes cabeças, um email à Direção Regional de Educação a solicitar instruções deve bastar para se saber como faz. E a viajar, seguramente que as vossas crianças não terão falta de estímulos 😉

Internet e telefone por satélite – Por acharmos caro não temos internet a bordo, só quando vamos a terra é que comunicamos e ficamos contactáveis. Mas sabemos que existe o Iridium go que disponibiliza net (fraca) por 150€/mês, além de permitir fazer chamadas no meio do mar. Dentro das comunicações, nós usamos o SPOT, um pequeno aparelho com 2 importantes botões, um que envia a nossa localização para um link que pode ser consultado por quem quisermos (e que vai construindo a nossa rota num mapa virtual) e outro, só para ser accionado em caso de emergência/risco de vida e que garante o resgate em qualquer parte do mundo! A localização de um barco também pode ser consultada no site marinetraffic.com, através do nome do barco. Este último método nem sempre funciona e principalmente na travessias oceânicas…

Cartas marítimas – Nós usamos principalmente as cartas da Navionics num Ipad, e compramo-las à medida que vamos precisando para não sobrecarregar o aparelho. Salientamos que fica mais barata a versão para smartphones e tablets do que a versão para barcos!!… E porque o plano B nestes casos é essencial também usamos as cartas do Open CPN no nosso computador. É um programa que se encontra facilmente na internet, gratuito, um pouco menos intuitivo, mas é como tudo, com exploração e prática chega-se lá! 😊

O que levar? Nesta área acreditem que vão precisar de muito menos do que imaginam! No mar além de se usar pouca roupa, deixa de existir aquela necessidade de variar. E se levarem roupa a mais, além de ser um peso desnecessário estraga-se e ganha mofo!! Aquilo que se usa mais são fatos de banho, t-shirts, calções e chinelos de praia e por isso só estes itens valem a pena ter em alguma quantidade. Saliento que são fáceis de comprar em todo o mundo, por isso não é necessário partir com tudo o que acham que vão necessitar! Quanto a material de cozinha, o mínimo também chega, graças ao fenómeno da seleção natural da culinária mais complicada! Livros são os nossos melhores amigos, mas também pesam, nós já nos adaptamos aos e-books. Música, filmes e guias é algo que se vai trocando com as gentes dos outros barcos 😉

Mais alguma questão? 😊

Estas informações são totalmente fruto da nossa experiência e se vos forem úteis partilhem, pois pode ser que sejam úteis a mais alguém! E se tiverem mais dicas pertinentes partilhem-nas nos comentários, ficamos todos a saber!! Obrigada!

 

 

A necessidade desenvolve o engenho e com certeza não foi coincidência que a Green School tenha nascido em Bali. Esta ilha da Indonésia é o perfeito e mais triste exemplo do que a sobrexploração turística faz a uma ilha paradisíaca… O mar é o mais poluído que já vimos nesta meia volta ao mundo e em terra, parece que os “homens do lixo” estão de greve há anos!…

À primeira vista Bali encanta, as praias ao longe são lindas, o verde vinga em qualquer cm2, o misticismo do hinduísmo e a incrível oferta turística quase nos cegam. Mas por muito que o entusiamo iluda sente-se a poluição do ar, vive-se o trânsito diariamente caótico, vê-se o lixo pelas ruas e cheira-se a podridão do mar…. Já são 40 anos de turismo desenfreado e o processo deve ter sido tal maneira gradual que os habitantes parecem conformados com o que lhes resta e continuam a pedir mais turistas… Não estão informados de que as suas maiores riquezas lhes foram roubadas – a paz e a saúde!…

 

Li um artigo científico de que não há um exemplo de uma localidade que depois de explorada turisticamente tenha ficado melhor e, no entanto, essa é a aposta de Portugal e dos Açores… dizem que é o Nosso destino!! Medo, agora, dá-me medo… Também aqui gritam Sustentabilidade, Ecologia e Biodegradável aos sete ventos… E também aqui o dinheiro está acima de tudo isso…

Mas nem tudo é mau e a esperança acende velas novas todos os dias. Foi em Bali que surgiu a Green School em 2008, uma escola toda feita em bamboo no meio da selva, onde a Ecologia, o Biodegradável e a Sustentabilidade se juntam à Empatia, Confiança, Responsabilidade, Integridade, Equidade e Paz para erguerem os seus pilares. Uma escola sem paredes que está a educar cerca de 400 crianças de 31 nacionalidades para serem pensadores e atores na proteção e preservação ambiental deste nosso planeta. Falam de educação holística, empreendedorismo social e aprendem por projetos. Vimos alguns, uma estufa-laboratório de hidropónica que aproveita a água de uns velhos lagos de peixes para cultivar legumes, todo desenvolvido por alunos, o autocarro escolar que anda com o óleo da cozinha (transformado em biofuel, que por sua vez depois de usado se transforma em glicerina e com a qual fazem sabonetes e detergentes que usam na escola), a estação de divisão do lixo e a zona de compostagem, também geridas por estudantes. À entrada têm uma loja aberta ao público de venda de roupas e artigos em segunda mão, para salientar a prioridade da reutilização e suprir necessidades da comunidade. Sim, também têm preocupações e projetos comunitários, qualquer um pode ir à escola abastecer de água potável, filtrada pela escola, disponibilizam aulas de inglês quase-gratuitas (em troca de meia dúzia de kg de lixo recolhido na comunidade, para sensibilizar) e as crianças locais podem recorrer a bolsas de estudo, financiadas por mecenas e pelas visitas dos turistas à escola.

 

E muitos outros projetos ambientais lutam diariamente nesta ilha para fazer frente à corrente. Mas nenhum arquitetonicamente tão bonito 😉